Archive for the ‘Contemporaneonissimo’ Category

Se há coisa que eu não compreendo, são estas criaturas, estes espécimes que teimam em aparecer nas ruas no meio das crises para libertar o lado mais romântico, mais emocional e mais instável das pessoas já psicologicamente afetadas por uma recessão económica, imaginem, estamos todos a temer o fim da zona euro, a queda da Europa como união, talvez mais duma forma emocional do que racional, -vão-me dizer que ao longo destes anos nunca vos passou isso pela cabeça?- e aparecem idiotas a inventar histórias ignorantes para ver se desencadeiam um levantamento dos peasants.  A mim já me passou uma guerra, por isso enfim, nem sei o que esperar da crise, mas eu não pretendo agitar a crise, não pretendo piorar o estado emocional das pessoas, e não invento mentirinhas nem tiro proveito do meu pessimismo para ganhar fama nas redes sociais.

Há gente muito burra, é o que eu tenho a dizer, ainda no outro dia apanhei um gajo que publicou no facebook um papel da PIDE que tinha lá escrito o nome do presidente da república (faz tanto que se o substituíssem pelo D. Duarte ninguém se aperceberia) e nos comentários haviam as mais diferentes opiniões como “Toda a gente que quisesse sair do país tinha de assinar isso, o meu pai assinou para ir para França”, “BURLÃO BURLÃO JA PARA A PRISSÃAO”, “FORA LADRÃAO” mas seja como for, não entendi o propósito da teoria da conspiração mal construída, não entendi se era um papel que toda a gente assinava para sair do país, se o Anibal é tipo um assassino em série que criou a crise. O que sei é que cada vez mais surgem estas piadinhas de mau gosto que me parecem a mim criadas por gente ignorante que se deixa levar pela teoria de que o homem nunca chegou à lua e que afinal foi tudo filmado num deserto americano onde estiveram extraterrestres, a gente típica que não produz neste país e se queixa da falta de produtividade dos políticos e já nem vou dizer que não tem a mínima proposta para sairmos da crise para além do “ai fora com o FMI” (O FMI sai e depois ficam todos desnorteados porque não tinham uma proposta prévia), e pronto, para compensar o excesso de estupidez tentam parecem o pessoal o wikileaks e publicam alguma conspiração reconstruída com ajudado paint.

É isto que não entendo nos portugueses, nalguns né, sinceramente eu acho que gostam deste economasoquismo (yay inventei uma palavra), gostam de ser os coitadinhos da Europa, porque é fixe estar-se numa má situação económica, afinal ainda se pode dizer “Ai eu tenho experiência, sei o que é a vida”, o problema é que esta gente só tem mesmo a experiência de viver uma crise o que me soa bastante útil quando não a querem ultrapassar, e enfim, envergonham os liberais do século XIX e os capitães de Abril, eu até propunha resolver o problema com educação, mas a estupidez profunda, a verdadeira estupidez não tem uma cura estatal, para esses não há esperança, e vão ver, há de passar a crise e vão dizer aos filhos “ai eu estive na crise de 2008 sei o que é a vida, passei por coisas que tu não passaste” como essa gente do estado novo que pensa que a malta nova não está a passar por um mau bocado, enfim, o problema é que são capazes de não ensinar aos filhos a lavar o rabo e a apagar as luzes, afinal segundo a mentalidade destes espécimes continua a ser “O estado que resolva”, mas coitados, não puderam comprar um iPhone em 2012 então ficaram com traumas para a vida.

Deixem a crise passar, talvez ela vos passe por cima, afinal “Fora o FMI” que isso só há de resolver o problema. Have a nice day

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Já há alguns tempos o livro que tenho visto como best seller na bertrand, na leYa e nos hipermercados é aquele tal 50 sombras de Grey. E então, houve um dia que eu decidi pegá-lo, enquanto o meu pai estava a tratar das compras, só porque sim, porque eu tenho de estar por dentro das coisas para poder criticá-las, se não estou a ser tão idiota como as adolescentes que lêem 50 sombras de Grey com entusiasmo.

Jane Austen lê 50 shadows of grey

Eu tenho um grave problema como leitora e escritora amadora: Se a primeira página não me interessar eu desisto do livro, se não aplico este método logo com o primeiro parágrafo, porque venho muito “mal” habituada com a literatura nacional. Foi o que me aconteceu com esse livro, mas como eu tinha de saber o que é que tinha de tão mal o livro, porque é que haviam tantas críticas, eu tinha de ler parte dele, então eu desisti do início (lá a moça, a Anastacia Steel falava do seu cabelo e que não podia fazer não sei quê porque não sei quem estava doente, não sei, foi algo do género) e fui avançando, e basicamente o que encontrei resumia-se a diálogos de submissão, monólogos da rapariga estar toda maluca pelo Christian e sexo – E eu fui logo parar a um capitulo com um fetiche de pés.

Ponto número um: Sexo é bom, toda a gente gosta de sexo, nada contra cenas escaldantes em livros, mas há um limite para tudo, cenas picantes em histórias de amor são a cereja no topo do bolo, admito, mas tem de haver história e amor e respeito acima de tudo. Se eu quiser ler histórias de foda eu não vou comprar um livro, já viram o que era os meus pais darem de caras com um livro pornô? Seria a mesma coisa que uma mãe ver o histórico do seu filho de 15 anos, verdade seja dita. Para quê comprar livros com histórias de foda se é o que mais há pela internet fora?

Mas o problema é que não é tanto o facto de ser um livro erótico, o problema é que é um best seller que atrai meninas de 13 anos, que está ali em destaque em todas as livrarias do país, da Europa e do mundo! Sabem o que é que deveria ser best seller? Sabem? Livros de verdade, uau. As adolescentes deveriam estar a ler Gonçalo M. Tavares, Edgar Poe, José Luís Peixoto, Carlos Ruiz Zafón, sei lá, tantos bons nomes da literatura internacional e é um pedaço de merda que se torna best seller, é isto que a sociedade valoriza? Que raio se passa?

As adolescentes em vez de estarem a ler bons livros, adolescentes portuguesas que deviam saber o talento português para a literatura, que supostamente estudam Luís de Camões, Garrett, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, como são capazes de deitar fora esse talento português que nos permite ter uma excelente percepção do que é boa literatura, e ler livros assim? Quem é que consegue ler um livro assim depois de ter lido tanto bom material ao longo da escola? Não se entende.

“Say something,” Christian commands, his voice deceptively soft.
“Do you do this to people or do they do it to you?”
His mouth quirks up, either amused or relieved.
“People?” He blinks a couple of times as he considers his answer. “I do this to women
who want me to.”
I don’t understand.
“If you have willing volunteers, why am I here?”
“Because I want to do this with you, very much.”
“Oh,” I gasp. Why?
I wander to the far corner of the room and pat the waist high padded bench and run my
fingers over the leather. He likes to hurt women. The thought depresses me.
“You’re a sadist?”
“I’m a Dominant.” His eyes are a scorching gray, intense.
“What does that mean?” I whisper.
“It means I want you to willingly surrender yourself to me, in all things.”
I frown at him as I try to assimilate this idea.
“Why would I do that?”
“To please me,” he whispers as he cocks his head to one side, and I see a ghost of a
smile.Please him! He wants me to please him! I think my mouth drops open. Please Christian Grey. And I realize, in that moment, that yes, that’s exactly what I want to do. I want him to be damned delighted with me. It’s a revelation.

Este é o problema das democracias, é um problema que todos nós aceitamos, que o mundo aceita, porque a nossa liberdade custou-nos a todos -e sabe Deus o que está a custar agora aos lusitanos- e o problema das democracias é permitir que todo o idiota possa dizer o que quiser quando quiser como quiser, por mais que isso ameace uma democracia e o estatuto da mulher no século XXI. E esta falta de lápis azul, de um filtro que nos salve de tanta porcaria, levou-nos a uma crise de valores e ética. Idolatro os capitães de Abril que nos tiraram da ditadura, idolatro o homem que empurrou o governador espanhol no 1 de Dezembro, viva a liberdade sim senhora, mas fodasse, as pessoas não a podem usar como deve ser e escrever grandes obras? Também não tem a liberdade de calar a boca para que não digam asneira, e as adolescentes não tem liberdade suficiente e cabecinha para verem que este livro é um atentado ao estatuto da mulher no mundo contemporâneo?

Nada de teorias da conspiração nem sociedades de iluminatis atrás do livro, o livro é apenas estúpido e parece incrível que mulheres hoje em dia não saibam reconhecer os esforços feitos no século passado para nós mulheres termos uma vida equitativa aos homens e deixarmos de ser escravas. Pleno século XXI e vem uma empecilha escrever algo tão atrasado temporalmente, tão sem sentido, tão contra a liberdade da mulher. Cria uma rapariga insegura, que não consegue pensar por ela própria, mas que estudou, teve uma educação e não consegue pensar por ela própria, parece-me algo bastante lógico, reparem que a Ana ou Anastácia ou lá o que é, diz He likes to hurt women. The thought depresses me e depois diz Please him! He wants me to please him! I think my mouth drops open. Please Christian Grey. And I realize, in that moment, that yes, that’s exactly what I want to do. 

Mas o que é que se passa? Aguenta Jane Austen, aguenta.

O consumismo em Portugal

Posted: December 24, 2012 in Contemporaneonissimo

Nota: Este post é para a blogagem coletiva do Christian, peço desculpa se fujo um pouco ao tema. Espero que este post seja compreensível para os brasileiros (o Chris e BC são brasileiros), porque não escrevi este post como se me dirigisse à portugueses mesmo se falar em “nós portugueses”, nem o escrevi a dirigir-me a brasileiros, eu dirijo-me ao mundo consumista em geral (eu não sei bem se a crise mundial afeta o Brasil, eu não fiz comparações, não no sentido do síndrome do coitadinho nem para dizer que os brasileiros são ricos porque eu sei que o Brasil é um país de extremos), apenas tentei ser compreensível na linguagem €uro, entre outros porque nas outras blogagens do Christian que participei a maioria das pessoas que me leram vivem do outro lado do Atlântico, e não podia escrever como se me dirigisse para tugas.

Na semana passada fui a um centro comercial, e gostava de vos dizer que havia consumismo, que as lojas estavam lotadas, que as pessoas estavam cheias de sacos. Mas não. O que eu vi foi muita gente a ver e poucas pessoas a comprar, como se fizessem uma seleção cuidadosa e tivessem o dinheiro contado. Como se tivessem aprendido a gerir as suas economias. Era isso, ou a banca rota.
Há dois anos atrás eu criticaria o consumismo no natal, e diria “ah vocês hipócritas dizem que estão em crise, estamos todos em crise, em vez de guardar o dinheiro, vocês gastam-no em coisas idiotas!”, e eu pensei que este ano seria o mesmo, mas a situação é trágica em Portugal! Em minha casa “só há presentes para o meu sobrinho”, e quando lhe fui comprar um brinquedo à Chicco (uma das maiores plataformas de produtos para a primeira infância que existe em Portugal, não sei se existe no Brasil) tinham descontos de 50%, a chicco, uma marca de prestigio e qualidade com brinquedos para bebés que em vez de custarem 12 euros, custavam 6 (o que é uma pechincha), e o pior, é que a campanha parece não ter funcionado, porque haviam poucas pessoas a comprar, em plena véspera de Natal, nada parece incentivar os portugueses a comprar.
Pelo menos o novo membro da minha família vai receber os seus primeiros brinquedos este natal porque eu acredito que há imensas crianças que não vão receber nada este Natal, sem contar com todas aquelas que não tem o que comer e terão de se alimentar das campanhas de solidariedade, e eu tenho sorte de ter tudo aquilo que preciso, porque mesmo quando há dificuldades e eu preciso de roupa, o meu pai arranja a maneira de me comprar camisolas compridas e casacos para o inverno e calções e t-shirts para o verão. E sei perfeitamente que é cada vez mais difícil para as famílias comprarem roupa e livros escolares para os seus filhos.

Os ministros que governam o meu país não sabem nada da vida, não tem o direito de nos dizer que 2013 será um ano difícil para toda a gente e que precisamos de união, não tem o mínimo de direito para nos dirigir uma palavra de esperança como se eles também passassem pelo que o povo passa, porque na ceia de Natal eles terão um peru recheado de kaviar, beberão o vinho mais caro à fase da terra e oferecerão prendas aos filhos e netos que compraram com o dinheiro que nos roubaram.
Irrita-me por toda esta situação que vivemos em Portugal, que haja consumismo excessivo e doentio noutros países, especialmente na época natalícia, porque nota-se que não sabem o valor do dinheiro. Posso parecer a minha mãe a falar, mas acreditem, quando estiverem numa crise, os impostos aumentarem o preço de tudo e o vosso dinheiro parecer evaporar, vão olhar para o dinheiro de uma forma diferente. As lojas que costumavam ir comprar roupa de repente se transformarão em lojas de luxo, as marcas brancas servirão perfeitamente para substituir um queijo philadelphia ou uma coca-cola – Coca-cola?! mas que coca-cola?! Só quando está a quase metade do preço é que se compra!
Sabem o que é que acontece em Inglaterra nesta altura do ano? Vocês saem à rua e vêm consolas de jogos à beira da estrada que ainda se usam porque saiu um novo software e o idiota inglês vai comprar uma nova consola, vão ver uma televisão LCD na rua porque saiu o novo modelo da Samsung, vão ver frigoríficos com um ano de uso porque o inglês viu um frigorífico com duas portas e apeteceu-lhe comprar! Expliquem-me, o extremo do consumismo inglês, quando eles sabem perfeitamente, ou deveriam saber, que também eles serão arrastados para a crise! Não faço ideia como é a situação noutros países ricos da Europa, mas eles estão a fechar os olhos e olham para Portugal, Espanha e Grécia como se fosse África. Ignorem o sangue derramado nas ruas de Atenas, ignorem Lisboa a arder, ignorem Madrid aos gritos. Consumam tudo o que virem à vossa frente, comprem comida que vão desperdiçar, comprem prendas que os vossos filhos irão guardar no armário e nunca mais irão ver, gastem centenas de euros ou dólares ou reais em coisas fúteis que nem valor sentimental tem, e o mais importante, lembrem-se de fazer um brinde e rezar à Deus para que a situação em Atenas melhore e todas as crianças portuguesas possam comer uma refeição quente, porque vocês são intocáveis e invencíveis até o dia que a desgraça vos bater à porta. Se se perguntam porque trago o caos de Atenas para a blogagem, só quero dar um aviso ao mundo, nós estamos em crise pelo efeito negativo do consumismo e maus investimentos. É hora de pagarmos as coisas que não soubemos dar valor antes.

Isto é Grécia, em Portugal a polícia é nossa amiga desde que não os tentemos matar, só não estão do nosso lado porque se isso acontece há um golpe de estado. Isto é Portugal:
E isto é Espanha:

Por outro lado, também gostaria de ver consumismo nas ruas da minha cidade, gostaria de ter entrado na Chicco e ter visto imensas crianças a exigir brinquedos, de ter ouvido bebés a chorar e ter ficado com dores de cabeças, de ter visto a roupa infantil toda desarrumada e mulheres a discutir por um body de bebé, gostava de ter visto as funcionárias atarefadas, de ter tido dificuldade em agarrar o brinquedo para o meu sobrinho e ter saído dali a pensar num post para criticar o consumismo em Portugal, porque seria sinal que as pessoas tinham dinheiro para gastar à grande e à francesa, mas não, aquela loja vai ter dificuldade em escoar os produtos e voltará a baixar os preços numa tentativa de vender algo.

Eu detesto “queixar-me” disto porque até o facto de descrever a situação da crise me faz sentir sufocada mas eu sinto que tenho de fazê-lo mesmo que ninguém me ouça e mesmo que eu própria me torne irritante para os outros. Não sei, é algo que não percebo em mim.
Desejo sorte a todo o mundo porque 2013 será um ano politico e economicamente difícil, tenham uma boa passagem de ano e um bom natal!

Eu tenho sorte de não estar já a fazer a fila no banco alimentar. Quando penso nisso, penso que quem tem com que pagar para comer em Portugal, Grécia e Espanha tem sorte, esta sorte não é uma sorte fácil e longínqua como a fome na África, esta sorte é dita e sentida no seu significado mais pleno, é quase como se estivéssemos num campo de batalha e sabemos que a próxima bomba lançada ou bala disparada pode atingir-nos, e sentimo-nos com sorte por estarmos vivos, parece que quantas mais pessoas feridas e prejudicadas na batalha, as estatísticas contra nós aumentam, e nos sentimo-nos com sorte por ainda estarmos vivos porque podemos ser os próximos a cair na miséria, e a frase torna-se mais sólida com o tempo. Sinto-me como a Katniss nos jogos da fome, entram vinte-e-quatro e só sai um da arena, pode acontecer a qualquer um, os nossos lideres colocaram-nos nestas situações sangrentas e, a final, somos todos iguais e temos todos o mesmo objetivo: sobreviver ao caos. Vemos o que é ter sorte com outros olhos, parece que as coisas que só aconteciam aos outros nos começam a acontecer a nós. Já vejo tanta falta de humanidade nesta Europa que está a lançar-se aos leões.

Eu não ouço falar da crise mundial, europeia e portuguesa todos os dias, eu vivo-a, todos os dias desde 2011 eu acordo para viver esta crise quando nos prometeram melhorias para 2013, hoje, sabemos que não,  eu realmente nem me preocupo com uma melhoria, eu preocupo-me em primeiro lugar com a estabilização. Aumentem as exportações, aumentem a produtividade, apostem na agricultura e no mar, apostem nas engenharias, proíbam as greves que aumentam a dívida se for preciso. Ou abdicam de um pouco ou esta nau vai afundar-se, eu não posso fazer nada, sou apenas uma miúda, apenas deixo o conselho, porque se for para falarmos de direitos humanos, eu posso começar pela parte em que eu vou pagar uma dívida que não devo, pelos lanches que eu deixo de comer para poder almoçar ou ter dinheiro para o autocarro porque não quero pedir mais dinheiro aos meus pais, as minhas poupanças desde que nasci que tive de emprestar aos meus pais ou gastar, a bolsa que eu não sei se vou ter, os doze anos que ando a fazer quando há ministros que tem equivalências sem estudar. Se estivesse no poder eu despedia todos esses parasitas que recebem mais de 3000 euros por mês e fazem greve, exilava-os até, porque amigos, estamos em crise, e se queremos manter a democracia se calhar era melhor colaborarmos um pouco uns com os outros.
Colaborar. É aí onde quero chegar. Caridade deixou de ser caridade, horas extras deixaram de ser horas extras, partilha deixou de ser partilha, empréstimo deixou de ser empréstimo, para mim tudo o que implique ajudar outras pessoas é o verbo colaborar, colaborar é urgente, mesmo que nos custe um pouco. E eu lembrei-me dalgo que nunca tinha feito parte da minha realidade, apercebi-me que o Natal não era sobre muitas prendas e nem sobre Jesus sequer, não para mim, o que o Natal realmente significa é sermos felizes durante dois dias e tentar fazer os outros felizes, esquecermos esta situação que vivemos por um pouquinho, é oferecer algo a alguém que precisa, ajudar o outro, é aqui que eu peço coisas como meias térmicas e no máximo livros, porque eu não preciso de um iPhone, eu preciso de meias térmicas. Ou pensam que só os sem abrigos precisam de algo que só nós podemos dar? Ofereçam coisas úteis aos vossos amigos e familiares, e sintam-se agradecidos por receber roupa no Natal, não vale a pena serem muito esquisitos a estas alturas, é só uma crise e vão ter de sobreviver ao Inverno.
Nós precisamos do Natal este ano, no ano passado fez-nos bem, precisamos de trazer de volta os antigos valores familiares, de chocolate quente e de um cobertor, de músicas natalícias que nos ponham bem dispostos e de colaborarmos uns com os outros, porque até que os países ricos não aceitem que também eles vão ser afetados com este vendaval e que a crise é mundial, ninguém vai ter pernas para andar. Será um pedido demasiado irrealista para fazer ao pai natal?

Eu não sou nenhuma santa e admito que já fui uma verdadeira cabra com algumas pessoas, e quando digo que já fui uma verdadeira cabra estou a querer dizer que já fui nalgumas situações uma mean girl, já gozei com pessoas nas costas, já disse que uma rapariga era feia, já me ri em situações que deveria ter ficado de boca calada e nalguns momentos já cheguei a ter uma auto-estima demasiada elevada, e é esse um dos temas que eu quero falar neste post, a auto-estima demasiado elevada das pessoas ou demasiado danificada.

Entre pessoas como eu que sabem admitir que a raça humana está recheada de terríveis defeitos e Deus nosso senhor nos abençoou com uma terrível habilidade para falhar e errar que quase parece uma arte, e pessoas que não sabem admitir quando são más e o pior, ainda acham que é fixe cometer erros com as outras pessoas, há uma grande distância.
Ao longo da minha vida fui-me cruzando com este tipo de pessoas, ou melhor, crianças que não eram e não são crianças nenhumas, que sempre gostaram de me fazer sentir mal comigo própria, sempre me deitaram à cara que eu era feia, que eu era burra, que eu não era o suficientemente boa em nada. Desde ao rapaz que me deu um murro no estômago à rapariga que me disse que eu não prestava a jogar basket e me fez esconder de baixo de uma bancada a chorar, desde o rapaz que me insultou e eu perdi a paciência e quase lhe bati à rapariga que dizia que eu era louca, entre outros. 
O meu verdadeiro problema foi eu ter onze anos na altura em que o bullying começou, eu não sabia que eles não tinham razão, eu não sabia que no futuro haveriam adultos a dizer que tinha uma inteligência fora do comum e que de vez em quando surgiriam rapazes que diriam que eu era bonita e que me trariam problemas. Eu não sei porque é que eu era a rapariga deixada sozinha nos corredores, porque quando penso na rapariga popular da minha turma, a verdade é que ela era uma feiosa e mesmo assim ela tinha os rapazes garantidos incluindo o rapaz que eu gostava. E, estas filosofias não me fizeram bem porque eu comecei a pensar que era gorda porque não era uma magricelas, que era burra por ser má a matemática, que era feia por não usar roupas de marca e de moda, que nunca jogaria bem basket como outras raparigas, que eu era demasiado alta, que eu nunca teria um namorado, etc, etc. 
É triste porque as crianças deveriam ser inocentes, não deveriam fazer sentir mal as outras crianças, a culpa é delas? Sim e não. A culpa é delas porque se eu me apercebia com essa idade que quando batia num animal podia chegar a matá-lo e que quando chamava nomes a outra criança ela choraria, então eu não deveria fazê-lo, porque eram coisas tristes. Por outro lado a culpa não é delas porque não foram elas que criaram os concursos de beleza, as revistas cor-de-rosa, as celebridades e muito menos as modas que atingem massas e os padrões de inteligência, elas eram e são vítimas dalgo que os adultos controlam, os adultos tem culpa do bullying, foram eles que criaram sem criar seres tão cruéis.
Ainda hoje no secundário sou uma rejeitada, não como era quando era garota mas sou, e às vezes os fantasmas dos corredores do meu antigo colégio me perseguem e me batem e insultam no corredor de cacifos até que eu desista de correr e caia no chão e chore e me sinta como há cinco anos. Não sou eu que choro, é uma menina de doze anos que acha que eles tem razão e se esquece dos momentos nos quais foi valorizada.
Sim, hoje é diferente, eu sei ler a personalidade dos que me odeiam, as pessoas que me querem atingir tem problemas de autoestima, sofrem de daddy issues, são raparigas que tem problemas com elas próprias e como toda a gente (engraçado, algumas são umas verdadeiras feiosas e a personalidade não as ajuda), hoje eu sei que não sou a única porque conheço muita gente que é como eu, sabem, os populares pensam que todo o mundo os ama mas é mentira, eles vivem nessa podre ilusão, devíamos ter pena deles porque nós somos normais, é normal que hajam pessoas que nos querem fazer sentir mal, eles tem um nariz demasiado empinado, são uns pobres coitados que em vez de investirem neles próprios insultam qualquer pessoa que seja diferente, qualquer pessoa desde que cumpra um ou mais dos seguintes critérios:
  • Veste roupa diferente
  • É um pouco mais inteligente que o normal
  • Tem um sotaque diferente
  • Parece mais novo ou mais velho para a idade
  • É demasiado bonita
  • Não é tão atraente como as outras raparigas
  • É swag
  • Não é swag
  • É bom(boa) nalguma coisa – pelo que deve-se dizer que tem a mania e que acha que é mais do que os outros por ter algum talento
  • É má nalguma coisa – É má nalguma coisa? É burro, inútil, estúpido, não sabe nada!
  • Faz vídeos para o Youtube – Mais uma vez é uma pessoa que acha que é mais do que os outros e que quer aparecer
  • Não sai à noite todos os fins de semana
  • É puta – Puta é uma rapariga que tenha tido vários namorados ou que não goste de compromisso e se fique pelas curtes, é bom lembrar que um rapaz que se fique por curtes deve ser honrado e não criticado, ou pelo menos não digas nada porque sabes bem que é normal 
  • É virgem – Virgem é qualquer pessoa que não tem um histórico público de relações (se as pessoas acham que aquela pessoa nunca teve um namorado(a), então essa pessoa nunca teve um namorado(a) ), mesmo que já tenha tido relações sexuais se essa pessoa não fizer entender aos populares que sabe dar um beijo, então essa pessoa nunca deu um beijo
  • Corta os pulsos – Se é uma pessoa que corta os pulsos e nós não sabemos nadinha da vida dela é óbvio que é uma pessoa com problemas psicológicos que se está a armar em coitadinha! Gozemos com essa pessoa porque é errado cortar os pulsos, não é ao tentar compreendê-la que a haveremos de ajudar!
E se as pessoas cometem suicídio depois de anos de gozarmos com eles e de lhe batermos, o que dizemos? 
         -Oh, não acredito! Gostávamos tanto dele(a)! Tinha tanto talento, era tão bonita, era um modelo a seguir! Como foi capaz? A culpa é da sociedade! 

Se calhar alguns de vocês lembram-se do post que eu fiz sobre aquela vez que telefonei aos bombeiros, numa altura em que uma rapariga da minha turma tinha ataques de pânico constantemente. Este ano há uma situação parecida, mas que eu não estava habituada. Desmaios. São horríveis, quer dizer, a maneira que as pessoas perdem o equilíbrio parece que caem mortas.
Esta rapariga que desmaiou não desmaiou uma única vez, é a terceira vez que a vejo a desmaiar, e não estou a contar com todas as vezes que ela desmaia e eu não estou lá para ver. Ontem, ela desmaiou na aula e perdeu a força no pescoço deixando cair a cabeça para trás, o meu único pensamento foi agarrem-lhe o pescoço e a cabeça!, porque é isso que eu fazia ao meu sobrinho há umas semanas atrás (antes de ele começar a ter alguma força) por ser um bebé e não ter força suficiente e poder partir o pescoço.
Eu e a minha colega de mesa que estávamos atrás dela afastamos as nossas mesas e rapidamente apareceram dois rapazes para a poder deitar, depois eu e um rapaz fomos abrir as janelas e duas pessoas saíram para buscar um copo de água com açúcar e uma funcionária, tudo sem pânico, toda a gente calma, menos a professora (por isso já sabem, a minha turma está bem preparada para a evacuação do fim do mundo). Depois à tarde quando subi as escadas vi uma multidão e lá estava ela deitada no chão, de novo.
Hoje, no meio da aula de geografia, ela voltou a desmaiar. A cabeça dela caiu de rompante na mesa quando ela perdeu o equilíbrio. O procedimento que fizemos ontem foi repetido, mas desta vez fui eu a correr à procura duma funcionária porque estava mais perto da porta. Corro e vejo se há alguém no sítio onde é suposto estar uma funcionária, chamo, digo em voz alta a minha colega desmaiou, preciso de uma funcionária ninguém me responde, volto a correr, não vejo ninguém, vou a sala de professores onde ninguém me pode ajudar, vou ao bar e finalmente há alguma funcionária que me diz quem chamar.
Volto revoltada para a sala, insultando mentalmente as velhas que deveriam estar no sítio delas, que deveriam limpar as salas, que deveriam ser menos antipáticas, que deveriam fazer alguma coisa mas não fazem coisa nenhuma. E só depois é que me lembrei. A greve.

Isso, exijam os vossos direitos enquanto esta rapariga pode morrer pela falta de competência e de funcionárias, porque se houvesse uma funcionária naquele corredor, tudo teria sido mais rápido, sabe-se lá o que ela tem (aqui já nem vou falar da falta de competência do nosso sistema de saúde). Palmas aos que exigem os seus direitos! Palmas! Mesmo que isso tire o direito à vida duma jovem, mesmo que isso seja um gasto que eu tenha de vir a pagar enquanto vocês estiverem dois metros de baixo da terra. Então não vivemos numa democracia? Cada um faz o que quer.

PS: Eu sei perfeitamente que as funcionárias da minha escola não ganham 3000 mil euros por mês, mas uma parte bem significativa das pessoas que fazem greve são capazes de ganhar por volta disso

É incrível, em todos os malditos vídeos portugueses do youtube sobre os problemas da pátria, sobre as nossas vitórias como nação e até no hino, há sempre um comentário dum brasileiro a xingar, a espalhar um preconceito qualquer que já deveria ter sido ultrapassado, há quanto tempo mesmo? E há claro, sempre um comentário parecido com o que eu acabei de dizer no top comments.
No famoso vídeo sobre o que os finlandeses deveriam saber sobre Portugal podem ver brasileiros e portugueses a discutir e a insultarem-se duma maneira que se fosse na vida real havia um genocídio e uma guerra ultramar, o mais óbvio seria os finlandeses insultarem-nos a nós porque apesar de não os estarmos a insultar, estamos a pedir-lhes dinheiro, não acham? Os brasileiros não tem nada haver nem com a troika nem com a crise portuguesa, não percebo porque vem insultar-nos em vídeos Europeus.
E eu decidi ver se em vídeos brasileiros também não existia um trollzito como nos vídeos tugas a chamar as mulheres portugueses de peludas e a dizer que nós temos culpa do estado do Brasil mas em versão portuguesa, e apesar de me ter custado a encontrar, por uma questão de estatística, não pensem que é por outra coisa, acabei por encontrar no hino brasileiro.

Foi uma seleção que me custou a fazer porque para além do nojo que tive ao ler comentários tão rudes, eu senti-me bastante ofendida, primeiro porque haviam brasileiros a responder preconceituosamente ao troll português e a insultar o país que lhes deu a língua que falam, e segundo porque muitas vezes não sabem a história do próprio país, e custou-me não responder (mas não o fiz porque não valeria a pena) porque estas pessoas sim queriam dizer o que comentaram, não são apenas trolls, e eu quero apenas dizer que eu própria lamento que Portugal tenha tomado más decisões com o Brasil no passado, acham que é fácil para nós nas aulas de história saber que éramos os heróis do mar, o nobre povo e que nos não fizemos nada com isso? Podíamos ter criado uma burguesia capaz de concorrer com a Holanda e a Inglaterra, podíamos ter dito não quando os ingleses nos fizeram o ultimato do mapa cor de rosa, podíamos ter feito muita coisa e hoje nós estamos pior do que vocês, sim nós estamos pior que vocês nós apenas estamos na Europa e estamos quase ao ponto duma crise política, nós não passamos fome mas estamos a passar um mau bocado, nós nunca tivemos manifestações como andamos a ter e há uma enorme tenção em toda a Europa por causa da crise mundial, acham que é fácil manter o orgulho pela nação quando cometemos tantos erros? E lamento que os italianos, os holandeses, os franceses e os ingleses não tivessem chegado ao Brasil primeiro, lamento imenso. Lamento muita coisa acerca do passado do meu país, mas eu não culpo nem os ingleses nem os espanhóis nem os chineses da nossa situação económica, e sabem por quê? Porque as medidas que tomamos ou deixamos de tomar foram e são nossas e só nossas, mesmo quando os espanhóis nos governaram durante setenta anos porque nós decidimos atirar o espanhol pela varanda abaixo, nós expulsamos os ingleses quando a família real fugiu para o Brasil na altura das invasões de Napoleão (sim, os ingleses assumiram o poder militar e torturaram muitos portugueses, queimaram-nos vivos e isso criou ainda mais motins, nós não desistimos) e somos nós que não tomamos medidas para poder concorrer com o comércio das lojas do chinês e ainda fomos capazes de vender dívidas e empresas à china. E sabem uma coisa? Vocês já são livres há tempo suficiente para tomarem as decisões correctas e fazer do Brasil um país tão desenvolvido como a União Europeia ou os Estados Unidos, ou acham que a independência não custou aos norte-americanos? Lamento, mas o Brasil já não nos pertence há séculos, vocês são independentes ou acham que Portugal criou uma conspiração para controlar a economia brasileira? E quando argumentos do vosso lado negativo não funcionam, em comentários ainda são capazes de dizer que são uma das potências mundiais. Sim, nesse caso, Portugal já não tinha nada a ver nada com o assunto, porque isso já tinham conquistado sozinhos, estou certa?

Mas eu não me fico por aqui, porque a maneira como os portugueses reagiram aos comentários dos trolls brasileiros também me chocou, porque tal como os brasileiros que quiseram dizer o que disseram, estes portugueses reagiram exatamente iguais. Trazem assuntos que não me dizem respeito como a história dos índios, que se não fossemos nós eles andariam pendurados as árvores, e claro, no fim a discussão vai dar ao mesmo porque os brasileiros vão buscar os seus argumentos, e os portugueses vão buscar os seus e enfim, quando terminam só se geram pessoas que detestam o Brasil ou Portugal.
E choca-me porque por culpa dum troll criam uma guerra desnecessária entre dois países que devem ser amigos e considerar-se lusófonos, pessoal nós partilhamos uma cultura, nós partilhamos tanta coisa! Mesmo que eu seja portuguesa e tu sejas brasileiro(a) eu sei que eu teria mais facilmente uma conversa interessante contigo do que com um estrangeiro qualquer, para mim vocês aqui não são estrangeiros quais queres entendem? A minha dashboard do tumblr não seria a mesma sem as brasileiras hilariantes, adolescentes que tem os mesmos problemas que eu, que detestam a escola tal como eu, que detestam que a internet caia e que muitas vezes gostam das mesmas séries que eu, dos mesmos filmes, das mesmas bandas e que lêem na mesma língua que eu. E é triste que hajam pessoas que querem destruir isso. É tudo o que tenho a dizer.

Okay, eu tive mesmo de fazer print deste! É a única pessoa que merece ter aquela coisinha preta
MORRAM SUAS PESTES FEIAS PELUDAS!