Archive for the ‘Cenas que escrevo’ Category

Uma velha colega pediu-me recentemente vídeos do terceiro ciclo, e eu tive de ir ligar um velho computador e vasculhar pastas abandonadas para encontrar o que ele queria que eu procurasse, demorei imenso tempo a passar os tais vídeos para o meu portátil, eu não queria memórias neste portátil, confesso, não essas memórias, tenho tentado fugir do meu passado diário e construir as bases do meu futuro, não existe presente para mim, eu vivo suspensa numa teia de tempo que me destrói, isto não é nenhum presente, neste lugar não há o “viver o momento”, não há muito que se viva mas tanto pelo que viver, se é que eu faço sentido quando falo. Ou escrevo, porque não dou tanto a falar como quando escrevo, talvez seja a minha repugnância a falar com esta raça, depois de me terem empurrado contra paredes mil e uma vezes durante estes anos da minha adolescência pensam que vou olhar com eles com uns olhos queridos e dizer-lhe as minhas melhores deixas, deixo-as para mim, para quem as quiser ler, para quem as merecer, para quem as tentar compreender, para os loucos como eu, e há de chegar o dia que haja quem pague por elas.

Vocês não me entende, nunca entenderam e nunca entenderão, eu não tenho a vossa idade, eu não sinto que seja adolescente, eu obrigo-me a agir como tal, quero que digam que sou imatura, não quero parecer séria tantas vezes, mas o que posso fazer quando não há volta a dar depois de ir ao inferno? Podem-me até empurrar contra o chão e espancarem-me que me vou rir na vossa cara cuspindo dentes, nunca poderão fazer-me o mal suficiente ao ponto de eu chorar a vossa frente, comparado com o que já me fizeram no passado, digam o que disserem tudo me fará rir porque nunca conseguirão afetar-me como as pessoas já me afetaram, eu cresci, e da pior maneira, ao contrário de vocês, a minha existência não é confortável, a minha vida não é confortável, eu não vivo com o papá e a mamã, eu não tenho um grupo de amigos e não sou bonita. E para compensar o meu único talento nato que é escrever, sou uma inútil no resto das capacidades humanas. 

Entendam, eu não estou sozinha por ter sido abandonada por um “grupo de amigos”, não tenho culpa de ter sido a única a querer ficar num momento em que todos decidiram partir, nem que isso custasse a vida de uma pessoa, eles iriam partir, covardes. Eu compreendo, é a natureza humana, é o medo, o que não justifica a vossa falta de valores, mas também, na selva vocês não precisam de ética, e não me interpretem mal, eu não vos odeio, isso implicaria correr atrás de vocês a gritar tudo o que penso de vocês, tenham calma, eu optei por ser má amiga e rir-me de vocês, falo mal de vocês nas costas, e não é que não tenha a coragem de dizer-vos o que penso na cara, na verdade, tenho pensado em confessar-vos a verdade, mas não me tem apetecido, não vejo o objetivo, não vejo como me pode ajudar a ser uma melhor pessoa, ser ou não uma melhor pessoa quando o objeto são vocês os dois meus amigostenho vontade de rir, é tão mas tão inútil eu ser uma boa pessoa com vocês e nem há de facto uma motivação para ser cruel de verdade, dá demasiado trabalho e como vocês tem de ser algo que seja fácil para mim. Em todas as pessoas do mundo, depois de me terem abandonado quando mais precisei de vocês, quando se esqueceram de mim, esperam que eu agora seja a sweetheart que estão a espera? Quem diria huh? Essas caras larocas dos vídeos se tornariam em pessoas sem carácter, esses amigos que pensaram que o seriam para a vida deixaram-se estar ao ver os outros a afogarem-se, Tenho de estudar, tenho teste para a semana. E os outros que antes eram crianças sorridentes, estão agora nas drogas, com pensamentos suicidas, a cagar para a escola, aos berros com a família, ou como eu, a isolar-se cada vez mais e a ver a arrogância crescer nos olhos. Ah Vicki cada um seguiu com a sua vida. 

Crescemos tanto.

Gosto de estações de serviço, gosto de estações de comboios e gosto de aeroportos. Sempre nutri uma afeição por autoestradas, sempre andei de avião, e a primeira vez que andei de metro foi uma emoção, quando era pequenina queria sempre andar de metro mas tinha de me contentar com um carro, os comboios, só os conheci verdadeiramente nesta Europa.
Nos estados unidos eram as autoestradas, eu sempre adorei autroestradas, começava uma música a dar e eu tentava adivinhar a letra com palavras infantis sem sentido, eu nunca acertei, lembro-me de cantar sobre árvores verdes que via na janela com a convicção de que era aquilo que o cantor iria dizer, era claro que eu nunca acertava, mas eu não desistia.
Quando a autoestrada apareceu no meu distrito, instantaneamente -ou pelo menos, assim a minha memória acha-, surgiu um sentimento de progresso, de modernismo, de sair daquele sítio, de ir para algum lado melhor, e eu nunca perdi essa emoção, as autoestradas serão para mim sempre como o caminho limpo, rápido e fácil da vida, que nos levam ao futuro de uma forma simples, como os ricos que não conhecem crises e são felizes na sua realidade distante à realidade, como se eu me pudesse sentir como as pessoas normais por um momento.

Mas os comboios, esses e os caminhos de ferro são mais mágicos, mais teatrais, mais divertidos, sempre que vejo um Alfa a arrancar sinto aquele aperto na barriga de alguém que está a prepara-se para uma efémera viagem numa montanha russa. Uma adrenalina que me faz sorrir, me faz querer saltar para dentro daquele comboio sem bilhete, sem destino, sem futuro nem passado. Se vai para Lisboa ou para o Porto, tanto me faz, eu quero é ir.
Observo atenta, invejando cada pessoa que entra em qualquer um deles, e eu ali, sem destino, sem bilhete, sem malas de viagens, sinto-me uma desconhecida na minha própria casa, numa terra de ninguém, aquele lugar é seguro, há mais probabilidades de ninguém saber o meu nome nem reconhecer a minha cara, ninguém me fará perguntas, estou à espera de um comboio que não espero.

Os aeroportos são um caso curioso, vejo gente de todo o lado, que se veste das mais variadas formas, que fala línguas que nunca ouvi, se se quisesse fazer um estudo mundial estatístico num único sítio, bastaria escolher um aeroporto, há pessoas de todos os formatos e cores, e de todos os lugares. Gosto de aeroportos, a minha única preocupação é não perder o avião, gosto de imaginar os sítios onde me levarão, gosto de sentir saudades por uns momentos da minha pátria. Quando passo a segurança, parece que já não estou no mesmo país, atrás daquelas paredes transparentes estou em território internacional, aquele lugar é uma cápsula que me permite despedir-me de Portugal sem mo arrancarem dos braços repentinamente.
Gosto de mudar, gosto de ver o sol nascer em comboios e do sol a por-se em aviões, gosto de ver a cidade a afastar-se e gosto de ver cidades pequeninas de baixo dos meus pés, gosto de cruzar a fronteira e me sentir livre, longe da minha terra, gosto de cruzar a mesma fronteira e sentir um alívio por estar de volta.
Não vale a pena prenderem-me, eu vou fugir, eu fujo sempre, mas volto, mais cedo ou mais tarde, não te preocupes, eu amo-te, eu vou sempre amar-te por mais que te queira odiar, não vale a pena, eu amo-vos, eu adoro-vos, mas vocês nunca se preocuparão comigo, e espero que sintam saudades minhas quando o comboio arrancar, vocês merecem isto, vocês merecem isto porque nunca me quiseram enquanto podiam. Agora sofram, sofram o quanto eu sofri, vocês merecem, eu quero ver-vos a pedir-me que volte quando sabem que só vou voltar quando bem me apetecer, preocupem-se agora, falem para mim agora, façam o que entenderem. E quando eu voltar, não é para os vossos braços, é para a minha amada cidade que me embalou e me educou, a minha Grândula Vila Morena, que nunca me abandonou nem me traiu.

Não queres agarrar a minha mão e levar-me para o meio do nada? Eu quero ir para algum lado onde ninguém saiba a minha história nem o meu nome, quero perder-me outra vez. Mas só vou contigo com a condição de tu não me conheceres.

Lembrei-te de escrever este texto como me lembro de escrever todos os textos que me lembro de escrever,  e apeteceu-me “mandá-lo” para o concurso da Hayley (porque é ela que vem cá buscá-lo), que agora que penso no assunto podia ter divulgado, mas pronto, desculpa lá Hayley. Eu acho que publicaria o texto de uma maneira ou da outra, não estou a pensar em ganhar créditos com isto, ele continua aqui publicado e vale o mesmo para mim premiado ou não. Nem acho que seja algo com um valor literário ao ponto de ir a concurso, hahaha, mas pronto, não me lembrei de mais nada! 

O batimento do coração da minha mãe a acalmar-me, o meu pai a pegar-me como um avião e eu a fechar os olhos para tentar adivinhar para onde ele me levava, a minha irmã mais velha a fazer uma concha com as mãos enchendo-as de água para de seguida me molhar o cabelo e cara e eu me rir, uma menina a correr nos seus patins e eu nos meus num pátio longínquo, um corredor de cacifos do passado onde eu e a minha irmã sem laços de sangue partilhámos segredos e criámos expetativas, um rapaz a encostar os seus lábios nos meus num movimento tão desastrado, tosco e especial. E tu, deitado num berço de hospital, vestido e amarelo, com mãos pequeninas e um choro tão meiguinho e dócil.
De todas as maneiras o amor sempre me surpreendeu e tem feito mais do que manter-me inteira, tem-me feito viver, e surpreende-me como é que algo tão bom ainda não tem um imposto acrescentado. E tu um dia vais aprender – um dia que não queria que chegasse porque recorda-me do meu e do teu inevitável fim – um dia tu vais aprender mais do que uma maneira de amar e vais ver que não será só uma questão de sobrevivência, vais entender que é pelo amor que nós vivemos, e que nós vivemos pelo amor. Esquece a vingança, esquece as guerras, esquece o trabalho das nove às cinco, esquece o dinheiro, esquece os vícios, esquece tudo o que te faz esquecer de viver e promete-me aqui e agora, antes que seja tarde de mais, faz-me e cumpre esta promessa, promete que vais ser um homem que me vou orgulhar depois de eu estar dois metros debaixo da terra. Tudo o que quero é que chegue a ti esta minha mensagem, feijão, tudo o que quero é que ames e sejas amado.
Talvez esteja a desperdiçar o meu tempo a escrever este texto, porque quando tu o leres, o mais provável é que aqui não haja nada de novo para ti, mas neste preciso momento presente para mim e passado para ti, o mundo é um inteiro lugar por descobrir para e por ti. Tu és tão pequeno, tens um sorriso tão espontâneo, tão inocente e é-me difícil interiorizar que já fui tão casta como tu és hoje, nesse ontem que tu lês. Sabes, serve-me de algum consolo nos tempos que correm  e que eu corro saber que já fui uma criança.
E é tão difícil compreender a tua existência, sempre foste um sonho não sonhado, um sujeito hipotético e imaginado que nunca desejei mas sempre desejei, e quando soube que estavas a chegar eu não acreditei e sentei-me no sofá petrificada a querer chorar de felicidade. Era uma notícia demasiado boa para as vésperas do ano do fim do mundo. E aqui tu estás, com os teus olhos grandes fixos em mim, a sorrir quando tu deixas que eu te faça sorrir, a chorar pela tua mãe numa expressão rugosa e vermelha, a dormir e a sonhar com pequenas coisas, a dormir.
Dorme meu pequeno, dorme agora porque a vida promete-te noites insones, promete-te dias cansativos que quando a noite cai sentes que não te deveriam cansar porque ao fim e ao cabo foram inúteis, promete-te noites em branco quando estás demasiado cansado para dormir, promete-te dias longos nos quais tudo e todos parece que querem ver-te cair dum abismo. Mas eu prometo-te aqui e agora, que em muitas dessas noites que estarás acordado depois da meia noite haverá pelo menos uma noite que consideras a noite da tua vida, poderás estar acordado porque alguém não quer sair dos teus pensamentos, poderás estar acordado a trabalhar nalguma coisa que seja realmente importante para ti, poderás estar num bar a beber e a rir com as pessoas mais importantes da tua vida, poderás estar a passa-la com a pessoa que mais amas, por isso, quando estiveres a chorar a altas horas da madrugada, lembra-te disto que eu te digo. E o dia, mais comum, mais banal não te irá desiludir todos os dias, dá-lhe a oportunidade de te mostrar uma nova maneira de amar, e se não houver uma nova maneira de amar continua a amar como já sabes, e se nalgum momento não queres amar porque sentes que o amor te crava espinhos no teu corpo, ama-te ao menos, porque no momento em que te voltares a render ao amor, não valerá a pena o meu amor, o amor dos teus pais, de toda a tua família, dos teus amigos e dalguém que faz o teu coração palpitar mais depressa se tu não te amas, e esse amor pessoal e intransmissível, não te magoará tanto, porque a pessoa que tu és é a pessoa que conheces melhor.
Eu sei, eu sei, às vezes acordamos e vê-mos um monstro no espelho, às vezes as nossas atitudes e palavras deixam-nos tontos e entorpecidos, não acreditando no que acabamos de fazer ou dizer. Nada disso deixa de ser natural, por mais macabro que te pareça seria contra a natureza humana não conheceres o monstro que habita nas tuas entranhas, usa as tuas habilidades humanas e saberás dominá-lo e usá-lo para o teu próprio proveito sem magoar os que tu amas e te amam. Leva tempo, rapaz, mas não desanimes, todos nós passamos por esses momentos de dúvida que baixam as nossas guardas e os demónios aproveitam as nossas fraquezas para entrar nos nossos corpos, expulsa-os do teu ser, usa o amor para combate-los, diz-me, o que entende o Diabo do amor?
Deixa o amor que te faça sorrir, deixa o amor agarrar-te o pulso e conduzir-te para uma dança, eu estarei lá algures a levantar o meu copo para brindar a tua existência, deixa que o amor te leve aos lugares certos, deixa que o amor te deixe louco, afinal, nós não passamos de pequenas criaturas dementes que não valem nada se não saberem fazer o amor vale, eu amo-te, meu pequeno, e não sabes o quanto te agradeço por me teres mostrado naquele dia em que entrei no quarto de hospital e te vi deitado naquele pequeno berço, vestido de amarelo, com mãos pequeninas e um choro tão meiguinho e dócil, uma nova forma de amar e de ver o mundo,
Da tua tia adolescente 

Sermos nós próprios não é fácil. Sermos nós próprios quando temos gente à volta que nos torcem os olhos por isso muito menos. Sermos nós próprios no secundário é difícil. Tem sido muito difícil para mim, em dias cedi a pressão, nesses dias odiei-me quando sabia que tinha de ter detestado os que me fizeram sentir assim. E foi aí que comecei a detestar essas pessoas (ou melhor, essas atitudes, porque eu sempre vejo várias pessoas na mesma pessoa e não posso detesta-las a todas a não ser num caso extremo), foi aí que passei a não ter medo de caminhar sozinha nos corredores ou na rua, foi aí que deixei de me importar por me acharem uma solitária. Não me conhecem, eu vivo com as minhas próprias regras e no meu próprio mundo.
Posso ser venenosa se me tentarem meter veneno, the bitch sempre me disse “Nunca digas muito de ti aos outros, muito menos aprofundes das tuas fraquezas e falhas, eles serão fracos por não reconhecerem as tuas fraquezas e não conhecerem o teu passado”, life is the bitch. Nunca me tentem mudar, nunca façam isso nunca tentem, nunca me digam para ser quem eu não sou, porque para teatro só tenho jeito nos palcos ou para atingir algum objetivo, nunca para perder amor próprio, por isso, se ao ser eu própria significa não ser convidada para festas então eu não quero ir a festas, porque elas serão um cenário montado que se esmagara com vómito, esperma, frustração e pela força da falsidade.

Durante dois anos fui eu própria a achar estúpidas as pessoas que deixavam de ser elas por causa das pessoas estúpidas à sua volta, porque eu sabia que essas pessoas estavam no sítio errado com as pessoas erradas. Eu sabia que elas tinham sido mais erradas ao deixar de ser elas. Eu achava que era fácil até ter sido posta no meio de pessoas com as quais raramente me identifico. Até me ter enfrentado várias vezes contra o espelho e ter desejado parti-lo por achar que não era boa em nada e que eu não merecia ninguém. Foi aí que passei a não ter medo de vestir as minhas próprias roupas e de dizer o que queria dizer, foi aí que deixei de me importar por me acharem bizarra. Não me conhecem, eu vivo com as minhas próprias convicções e faço as coisas que gosto.
Eu não estou errada, nunca estive errada, nenhuma das vezes que chorei por ter querido ser como as outras raparigas não estive errada, apenas estive errada em ter desejado algo que rejeito, tanto por escolha como por natureza. Não sou como as outras raparigas, conversas fúteis comigo são raras.
Às vezes estou no sítio errado com as pessoas erradas. E não sou eu que estou errada, eu não tenho nada a provar, eu não tenho que fazer o que seja, eu quero é fazer o que quero fazer, e só isso é (da) minha responsabilidade, tudo o resto é secundário. Quem não escreve um livro, critica.
Não me conhecem, eu vivo com as minhas próprias regras e no meu próprio mundo. Matem a tua falsa realidade longe de mim oh adolescente comum. O que antes era ódio por ti, hoje é pena, puramente pena.

A vida é tão curta

Posted: April 30, 2012 in Cenas que escrevo

Notas da autora:

Atenção, eu era jovem e não sabia o que fazia! 
Este é o primeiro conto que escrevi, foi bastante inspirado no videoclip de Wake me up when september ends, provavelmente eu não escreveria tal coisa hoje, mesmo que haja só um ano de espaço o que escrevo hoje não tem nada haver com este conto. Pode ser fraquinho mas gosto dele porque foi o primeiro conto que escrevi. Mandei-o para um concurso e não ganhei nada, vai-se lá saber por quê com tanto cliché. BTW esta é a versão original, ainda houve uma tentativa de alongar o conto mas não resultou.

A vida é tão curta

O homem tem que estabelecer um final para a guerra, senão, a guerra estabelecerá um final para a humanidade, John Kenney
O sol brilhava agradavelmente sobre o campo verde onde se estendiam altíssimos girassóis que podiam ultrapassar a altura de uma pessoa. O vento soprava suavemente fazendo com que as flores baloiçassem num movimento leve e delicado de vaivém. Ouviam-se os típicos sons da natureza, os passarinhos a cantar, os grilos a fazer barulho e, de vez em quando, as pegadas dalgum gato a abrir caminho entre os girassóis ou a preparar-se para saltar e caçar alguma borboleta.
No meio da paz e do sossego estavam dois jovens apaixonados abraçados.
– Sabes Aurora… – começou o rapaz, olhando a rapariga nos olhos – A vida é tão curta… Tenho medo de acordar um dia e tu não estares lá… Todos os sonhos e tudo o que eu queria… Desaparecidos assim… simplesmente… As pessoas e as coisas mudam, e acabamos por envelhecer e um dia morremos…Eu quero este preciso momento para sempre, o que sinto por ti, a forma como tu me estás a olhar…
– Eu nunca te vou deixar – respondeu a rapariga – Nunca. Vou estar lá sempre para ti, eu amo-te, e nada nem ninguém vai mudar isso.
A rapariga apertou a mão do rapaz como quem fizesse uma promessa e repetiu:
– Eu amo-te Samuel. Vou estar contigo seja onde for, seja por que for.
– Eu sei – disse ele, e nos seus azuis esverdeados transparecia uma certa tristeza e uma leve insegurança, que Aurora não notou por estar com a sua cabeça recostada no seu ombro
– Não me deixes nunca, por favor – pediu ela quase a suplicar
– Nunca – prometeu-lhe ele numa mentira tão doce e verdadeira
Aurora deitou-se sobre a erva e Samuel seguiu o exemplo. Ficaram assim a trocar típicas palavras de apaixonados, a partilhar sonhos e a fazer planos, enquanto o sol se punha nas montanhas e o céu ganhava tonalidades laranjas e rosas.
-Podíamos comprar uma casa perto da praia e aos fins-de-semana iríamos à praia com os nossos filhos. Eles correriam felizes pela areia e construiriam castelos.
Samuel sorriu-lhe, mas os seus olhos distantes não se ajustavam ao sorriso que havia esboçado.
À medida que a noite ficava cada vez mais escura, a mente e o corpo dos dois jovens apaixonados iam cedendo ao cansaço e a certa altura acabaram por adormecer.
O Verão passava rapidamente para os dois jovens namorados e o tempo ia moldando a sua relação. Aquele amor crescia entre beijos e abraços, sonhos e planos, e cada segundo que passavam juntos contribuía para amadurecer o namoro. Eles iam juntos ao cinema, conheciam as famílias um do outro, almoçavam juntos quase todos os dias e de vez quando iam ao campo verde repleto de girassóis.
Porém, havia algo que estragava ligeiramente aquela perfeita ilusão e que incomodava constantemente Aurora:
– Não te alistaste, pois não? – perguntou Aurora a Samuel, enquanto apreciava a vista do campo verde cheio de girassóis, sentada com Samuel nos baloiços de um parque infantil já há muito abandonado
– Não – respondeu Samuel olhando para o chão
– Que peso me tiras da consciência… O estado anda a recrutar rapazes para a guerra e eu pensei… – desabafou Aurora e notando nos sentimentos que saltavam da retina de Samuel inquiriu – O que tens?
– Nada… Estou só a pensar que te amo
– E isso faz-te ficar triste?
– Não. Faz-me pensar que… Não te lembras o que te disse no início do verão?
– Lembro, esquece isso…
Samuel não respondeu, limitou-se a anuir e voltou a meter os olhos no chão, notando que as primeiras folhas secas já marcavam a sua presença.
O número de folhas crescia dia após dias e o Outono já começava a ocupar o lugar ao verão. As folhas agrupavam-se em montinhos que tinham de ser repostos todos os dias, já que o vento e as crianças adoravam destruí-los.
Num dia quente, porém fresco, de Setembro Aurora empurrou a porta traseira da sua casa com tanta força que quase a partiu e aproximou-se em passos pesados a Samuel e inquiriu-lhe:
-Porque é que o fizeste?
-Eu ia contar-te…
-Mentiroso! – gritou Aurora empurrando-o, e depois caiu em lágrimas – Eu não acredito… Como é que tu foste capaz…? Tu disseste que não te tinhas alistado… Meu Deus… Agora tu…
-Eu fi-lo por nós! – gritou ele colocando as mãos na testa carregado de frustração – Porque é que não compreendes? Eu fi-lo por ti! Pela minha família e pela pátria!
-Oh meu Deus…- balbuciou ela em choros, gemidos e guinchos – Covarde…
Samuel não gostou daquelas palavras e Aurora ficou tão zangada que não lhe falou mais. Então ele partiu para a guerra, sem despedidas e sem um último beijo. Mesmo sabendo que aqueles podiam ter sido os últimos dias da sua vida.
As notícias da guerra eram limitadas, as imagens e filmagens eram escassas e os jornalistas pouca informação podiam dar, já que por questões de seguranças estavam condicionados. Portanto, quase tudo o que chegava à Aurora era-lhe tão útil como saber que Samuel estava na guerra, mas mesmo assim, por amor ao país, via sempre que podia as notícias e por reflexo assomava-se à janela, procurando dentro de si uma forma de matar a saudade e o desgosto que Samuel lhe tinha causado.
O que mais doía a Aurora era não poder saber o estado do seu companheiro. Podia estar vivo ou morto, prisioneiro ou ferido. As hipóteses eram tantas e quantas mais colocava, pior ficava. Era durante a noite, quando se sentia indefesa, que a dor a atacava com facadas mais profundas. Ela roía as unhas, arranhava o colchão, apertava os cobertores contra o peito e chorava descontroladamente, mas quando era de dia ela escondia a dor por de trás de um sorriso e não se deixava cair se tivesse que falar sobre o assunto, e teve que fazê-lo muitas vezes, porque o assunto era nacional e não podia ignorá-lo, seria egoísta o cidadão que o ignorasse.
Ela desistiu da sua própria vida, largara a universidade e não falava com ninguém, mas um dia o sol entrou com mais luminosidade no seu quarto e ela decidiu que tinha de largar a tristeza e frustração e fazer-se à vida. E foi assim que aos poucos reconstruiu as peças da sua vida que Samuel havia destruído.
– Podia ter sucumbido simplesmente, como tantas outras fizeram. Mas a minha vida existia antes de Samuel entrar nela – observou Aurora, dez anos depois de ter recebido a notícia que ela mais temera, a morte de Samuel – Mas eu não podia acabar com a minha vida, especialmente naquele momento da minha vida em que era jovem.
A amiga que ouvia a sua história engoliu em seco e deteve as lágrimas.
– Eu amava-o sim. Mas o mundo continuava vivo fora da janela do meu quarto e o tempo não tinha parado um segundo sequer. Significava que eu continuava viva, apesar de não acreditar, eu ainda tinha uma vida pela frente. Depois de muitos chás, choros e chocolates cheguei a conclusão que era simplesmente estúpido chorar sobre leite derramado. O que está morto não volta e a única saída que nos resta é agarrar-nos à algo e continuar a respirar.
A sua amiga respirou fundo, as duas levantaram-se do sofá e aproximaram-se da varanda. Uma bela praia era visível debaixo dos seus pés, no mar ondas sopravam com suavidade, trazendo-lhes uma brisa marítima agradável, e na areia um menino corria feliz e construía castelos.
-A vida é tão curta… – disse Aurora sorrindo e contemplando os olhos do menino. Uns olhos azuis esverdeados como os de Samuel.
Victória Esseker

Vultos ou rostos?

Posted: April 15, 2012 in Cenas que escrevo

A maioria dos rostos com os olhos sobre mim não são rostos. E se são, se assim lhes querem chamar, então serão para mim rostos sem forma, cor ou brilho, serão vultos de cabeça baixa e olhos escondidos mas atentos sobre mim, como se lhes coubesse anotar e relatar as minhas vitórias e derrotas. Como se fossem espias de casacos largos e cartolas perseguindo-me, como se achassem que conseguem prever o meu próximo passo. São vultos, não rostos. São vampiros que querem sugar o meu sangue porque parece que não o tem, não são pessoas. Ou mortos que caminham porque alguém lhes disse caminhem. E se são pessoas, se estes vultos são pessoas, são qualquer coisa má com a qual me cruzo todos os dias. Multidões em ruas, multidões em estações, multidões em escolas, multidões aqui, multidões antes, multidões amanhã e depois. Multidões a minha volta, multidões que me olham de fora, multidões que me olham de dentro, de dentro de mim, multidões que me olham de fora e de dentro, de cima, de baixo em todas as direções e dimensões. Multidões. Multidões de vultos. Multidões.
Rostos. Não há multidões de rostos. Não para mim. Rostos estão na multidão mas não há multidões de rostos, não porque eles destacam-se de todos os outros. Rostos são coisa que lembro com carinho, a maioria despedaçados ou desfocados pela passagem inevitável do tempo, alguns ficaram intactos. Outros como que com o rosto tapado pois não consigo já recordar os detalhes das suas caras. Mas são rostos pois tem identidade. São pessoas que recordo ou recordarei.

Rostos que me olham de cima sorrindo por eu ser pequenina. Rostos que sorriem e fazem palhaçadas e são tão vivos a olhar-me de cima. Rostos que me sorriem por eu usar fraldas e dormir num berço.
Rostos que me ralham por eu ser pequena. Rosto que ralham e me castigam por eu ter trepado uma estante.
Rostos que me vigiam. Rostos que me protegem por eu ser pequena. Rostos que se surpreendem por eu deixar gradualmente a minha infância para trás. Rostos que não querem que eu cresça. Eu não quero crescer.
Rostos que olho de cima e que me sorriem. São rostos que costumo chamar de família.

Rostos que lembro com nitidez. Ele a olhar-me de longe, num dia de sol, tão perto, com uma t-shirt do concerto do dia anterior. Ik hou van jou. Um rosto que tentei esquecer, apagar, mas está sempre lá naquele dia de sol, tão perto e tão longe de mim, com a t-shirt do concerto do dia anterior. Sempre está lá de cada vez que o vento sopra duma forma que me lembra um final de tarde sereno de Outono. O sol morno, o fim das aulas, a vegetação imortal do parque, a alegria da nossa juventude que queremos que fique viva mesmo que morramos. E no seu rosto, hoje, começa a ganhar barba e eu sorrio com orgulho do homem que se está a tornar. O tempo passa, o tempo passou mas o rosto dele ficará sempre comigo com a inocência e travessura do primeiro ano da adolescência. Os rostos mudam, e é tão bom quando mudam connosco e ao mesmo tempo ficam intactos e indiferentes a passagem inevitável do tempo.

Rostos que lembro com nitidez. Dum dia de sol, ela a sorrir-me no antigo jardim da escola hoje em ruínas. menina pequena, insegura, com franja de corte direito. Menina a sorrir. Feliz e triste. A minha câmara algures. Uma corrida, qualquer coisa infantil e engraçada. Música vinda dum telemóvel. O seu cabelo encaracolado e curto. O seu sorriso. Encostadas aos cacifos, crianças numa secundária. Queremos que o tempo passe mas não queremos crescer. Eu não quero crescer. O tempo passou, a sua cara mudou, a sua mentalidade mudou, passou tanto tempo e passou-se tanta coisa em quatro anos, mas posso lembrar-me desse almoço nesse jardim em ruínas como se fosse ontem e ignorar por um pouco tudo o que aconteceu nos últimos anos. Como se houvesse uma história que intrigasse alguém que visse a memória do antigo jardim em ruínas e me perguntasse o que se passou durante os quatro anos que separam o jardim que não existe e o dia de hoje.

Rostos que lembro com nitidez. Ela a sorrir-me e a dizer-me qualquer coisa importante, o seu cabelo escuro liso num puxo. Menina misteriosa, estranhamente independente, a caminhar na minha direção atrás de mim. Pode não estar por perto, mas eu sei que ela me vai agarrar se eu cair porque os amigos servem para isso. A saltar sobre uma poça e a dizer palhaçadas. I am the monster. Um rosto que me diz vou partir, vou ficar. Um rosto que me deixa sempre em dúvida mas que apesar de tudo é minha amiga. E mais uma vez, ela fica intacta, as suas peças de roupa, o seu cabelo escuro num puxo, foi a que menos mudou mas mudou na mesma. Ela fica em mim como se fosse 2009 em 2012. Ela ficará em mim em 2899 como se fosse 2009. Ela é a que mais dificilmente sabe ou saberá que é importante à sua maneira para mim.

Rostos que lembro com nitidez: Rostos que costumo chamar: Amigos

Tantos rostos cruzaram a minha vida, seriam poucos comparados com a multidão de vultos. Mas são tantos porque são importantes. Tantos rostos que eram importantes. Que eram importantes. Memórias, coisas deixadas para trás, sorrisos perdidos mas guardados na minha mente. Para mim rostos distinguem-se da multidão, tem cor, brilho e forma. São vida. São vidas em mim. Vidas que não esqueço.

Made in Catalunya

[Para fábrica de letras, tema de Abril atrasado – Rostos]
Shit happens 
Eu passei de eterna sonhadora romântica a frustrada sem paciência para essas merdas. E sempre admirei casais que duravam porque eu não tenho nunca certeza do que sinto se é que sinto, e quando acho que sinto fujo ou encontro razões para não gostar do rapaz. E tudo o que me resta são os sonhos que parecem realidade, acordo a pensar como seria bom se fosse realidade, mas quando realmente acordo percebo que as coisas não são assim tão fáceis. E um dia encontrei um casalinho da minha idade que namora desde os 12 anos (3 anos de namoro), encontrei-os, e sempre gostei de como eles eram como relação, perguntava a moça como era possível, e ela só dizia que não podiam acabar por se chatearem. E sempre os admirei, tão queridos, tão doces, quase inocentes e puros, quase aquilo que eu quero um dia. Quase.

E tudo poderá escapar das suas mãos em poucos meses, não porque o amor não seja suficiente, não porque se chatearam, não porque há diferenças, não porque nunca se sabe, mas porque o namorado pondera a opção de emigrar fortemente, fortemente mesmo. E ela continua nos braços dele, como se não se passasse nada, como se houvesse a promessa de ficarem juntos. E isso entristecesse-me. Eu só queria que ficassem juntos para sempre. I ship them, fucking life.
Ele só tinha vindo a Portugal para procurar um chance, como eu fiz aos seis anos, ele veio e encontrou-a. É injusto sabem? Sentirei muito mais por eles se ele voltar ao seu país de origem do que eu alguma vez senti quando acabei com o meu primeiro namorado, porque nós perdemos a química, eles tem-na, e digo-vos, essa química é uma combinação muito específica do que vocês inconscientemente querem, e é rara, eles tem-na. E parece que lhes querem arrancar essa hipótese. We never had a choice, this world has too much noise.
Depois ainda me perguntam porque é que eu simplesmente não me atiro aos braços do rapaz dos meus sonhos das últimas noites, depois eu ainda me pergunto porque não? Se foi tão bom… .Depois ainda querem que eu acredite no amor, ele é que parece não querer acreditar em nós. Naqueles dois pombinhos que só tem 15 anos e tem mais maturidade do que muitos adultos que não conseguem segurar uma relação. I fucking ship them. I fucking want to see them together forever and ever.
E…Os pais do rapaz dos meus sonhos das últimas noites chegam a pensar em ir para a Alemanha. E não, eu não o quero tanto como quero aqueles dois juntos porque eu nunca tenho certeza do que sinto se é que sinto. Mas mesmo assim, é injusto sabem? Tirarem-nos as chances e partirem-nos os corações. É tão injusto, nós não fizemos nada de mal. It takes me under once again