Archive for March, 2013

Uma velha colega pediu-me recentemente vídeos do terceiro ciclo, e eu tive de ir ligar um velho computador e vasculhar pastas abandonadas para encontrar o que ele queria que eu procurasse, demorei imenso tempo a passar os tais vídeos para o meu portátil, eu não queria memórias neste portátil, confesso, não essas memórias, tenho tentado fugir do meu passado diário e construir as bases do meu futuro, não existe presente para mim, eu vivo suspensa numa teia de tempo que me destrói, isto não é nenhum presente, neste lugar não há o “viver o momento”, não há muito que se viva mas tanto pelo que viver, se é que eu faço sentido quando falo. Ou escrevo, porque não dou tanto a falar como quando escrevo, talvez seja a minha repugnância a falar com esta raça, depois de me terem empurrado contra paredes mil e uma vezes durante estes anos da minha adolescência pensam que vou olhar com eles com uns olhos queridos e dizer-lhe as minhas melhores deixas, deixo-as para mim, para quem as quiser ler, para quem as merecer, para quem as tentar compreender, para os loucos como eu, e há de chegar o dia que haja quem pague por elas.

Vocês não me entende, nunca entenderam e nunca entenderão, eu não tenho a vossa idade, eu não sinto que seja adolescente, eu obrigo-me a agir como tal, quero que digam que sou imatura, não quero parecer séria tantas vezes, mas o que posso fazer quando não há volta a dar depois de ir ao inferno? Podem-me até empurrar contra o chão e espancarem-me que me vou rir na vossa cara cuspindo dentes, nunca poderão fazer-me o mal suficiente ao ponto de eu chorar a vossa frente, comparado com o que já me fizeram no passado, digam o que disserem tudo me fará rir porque nunca conseguirão afetar-me como as pessoas já me afetaram, eu cresci, e da pior maneira, ao contrário de vocês, a minha existência não é confortável, a minha vida não é confortável, eu não vivo com o papá e a mamã, eu não tenho um grupo de amigos e não sou bonita. E para compensar o meu único talento nato que é escrever, sou uma inútil no resto das capacidades humanas. 

Entendam, eu não estou sozinha por ter sido abandonada por um “grupo de amigos”, não tenho culpa de ter sido a única a querer ficar num momento em que todos decidiram partir, nem que isso custasse a vida de uma pessoa, eles iriam partir, covardes. Eu compreendo, é a natureza humana, é o medo, o que não justifica a vossa falta de valores, mas também, na selva vocês não precisam de ética, e não me interpretem mal, eu não vos odeio, isso implicaria correr atrás de vocês a gritar tudo o que penso de vocês, tenham calma, eu optei por ser má amiga e rir-me de vocês, falo mal de vocês nas costas, e não é que não tenha a coragem de dizer-vos o que penso na cara, na verdade, tenho pensado em confessar-vos a verdade, mas não me tem apetecido, não vejo o objetivo, não vejo como me pode ajudar a ser uma melhor pessoa, ser ou não uma melhor pessoa quando o objeto são vocês os dois meus amigostenho vontade de rir, é tão mas tão inútil eu ser uma boa pessoa com vocês e nem há de facto uma motivação para ser cruel de verdade, dá demasiado trabalho e como vocês tem de ser algo que seja fácil para mim. Em todas as pessoas do mundo, depois de me terem abandonado quando mais precisei de vocês, quando se esqueceram de mim, esperam que eu agora seja a sweetheart que estão a espera? Quem diria huh? Essas caras larocas dos vídeos se tornariam em pessoas sem carácter, esses amigos que pensaram que o seriam para a vida deixaram-se estar ao ver os outros a afogarem-se, Tenho de estudar, tenho teste para a semana. E os outros que antes eram crianças sorridentes, estão agora nas drogas, com pensamentos suicidas, a cagar para a escola, aos berros com a família, ou como eu, a isolar-se cada vez mais e a ver a arrogância crescer nos olhos. Ah Vicki cada um seguiu com a sua vida. 

Crescemos tanto.

Às vezes esqueço-me do quanto frágil é a minha geração e do quanto eu me posso deixar levar pelas minhas emoções. Eu costumo ser uma pessoa bastante racional e dificilmente me deixo levar por discursos, desconfio de tudo e de todos, não caio em apelos à misericórdia facilmente, mas quando as pessoas próximas a mim estão em perigo e o meu próprio país está à beira do abismo eu perco a noção com facilidade e torno-me na pessoa mais dramática à fase da terra. É contraditório, não sei como explicar, talvez seja o medo e o desespero, porque é isso que muita gente sente hoje em dia com a situação que vivemos, talvez sejam os meus pontos fracos, toda a gente os tem eu não ia ser uma excepção, afinal também eu sinto frio e medo do escuro.

Mas se formos falar sobre quem são os portugueses mais frágeis e que se regem mais pela emoção do que pela razão porque nunca a aprenderam a domina-la efetivamente, seriam primeiro os pobres, depois os velhos e em terceiro lugar os jovens que vou abranger dos zero aos vinte e pouco anos, mas quero falar mais propriamente dos que estão no secundário porque é a realidade que eu melhor conheço. Qualquer pessoa que eu conheça da minha idade, mais ano menos ano, que tenha objetivos de vida (às vezes nem é necessário) tem mentalidade de “estou a estudar mas isto de certeza que não me vai valer de nada”, especialmente se estiver no curso de humanidades ou de artes porque a verdade é essa, de certeza que não nos vai valer de nada, mas podemos sempre emigrar, talvez outro país nos queira.

Parecemos um pouco excluídos, ainda olham para nós como se fossemos as crianças de 2006, não podemos propriamente ter uma posição política, seria estúpido, mas a gente vai falando entre nós sobre o que está a acontecer no país, e não, não sou a única que está a criar uma mentalidade democrática, conheço muito pessoal da minha idade que percebe a situação em que fomos apanhados e entende que somos um país pós-ditatorial. O problema é que nós somos frágeis, temos medo do futuro porque não há dinheiro para cumprir promessas e não há sequer promessas, e se esta geração tem a capacidade de criar o verdadeiro Portugal democrático vai sempre haver alguém para tentar estagnar esse processo democrático e transformar-nos em mais uma geração indiferente e de “o estado que resolva” ou pior, nós seriamos capazes de usar esse poder de forma inversa. É um poder estranho, esta geração tem um futuro que promete sem prometer porque nós “não tivemos tudo” e “vimos” especialmente os nossos sonhos e interesses ameaçados, e apesar de na nossa infância termos vivido à grande e à francesa quando nós crescemos isso mudou e naturalmente sentimos raiva de uma austeridade que quis por propinas num ensino que é público e gratuito. Estão reunidas todas as condições para mudar uma geração que pode mudar o país, esta é a geração que acordou e entendeu que há alguém que está e vai pagar pela revolução de 74, e calhou-nos a nós. Estamos chateados, fazemos as nossas próprias manifestações, grafitamos paredes e casas de banhos, lançamos bombas de molotov dentro de colégios semi-privados, fazemos drogas e pisamos cravos. E há alguém que consegue ver o quanto racionais deixamos de ser em momentos limite, há alguém que consegue ler o medo que sentimos e que entende que somos um rebanho sem um pastor e que no fundo somos crianças, esse alguém não é propriamente uma pessoa com cara e nome, não é uma figura pública, é um “lider” invisivel que já pescou alguns de nós e os transformou em carne de canhão, é um lobo (um lobo ou vários), e apesar da guerra fria ter acabado há muitos anos o comunismo em Portugal chegou mais tarde para arruinar-nos e quer voltar, quer usar-me e vai tentar manipular-me até ao fim, como aqueles ciganos que nos obrigam a comprar as suas quinquilharias e nós compramos para que nos deixem em paz, os ditos comunistas estão a manipular-nos com os nossos próprios medos, exageram-los e romantizam-los, e eu tentei não cair nas suas mentiras e tenho vergonha de dizer que eu caí, eu não sabia que eles estavam por trás daquela estúpida manifestação, eu juro que não sabia que eram comunas até me aperceber que o coordenador era um comunista que passava bem por adolescente.

O que poderia vir a acontecer se eu tivesse dito que sim que ia a uma reunião do partido da juventude comunista?

Em várias aulas há pessoas que se sentaram ao meu lado e se vocês estivessem naquela sala iam ver-me com o canto superior dos lábios em bico de vez em quando, no extremo da minha mesa e eventualmente a por a manga da camisola a tapar o meu nariz a ver se consigo inalar algum odor minimamente agradável ou pelo menos neutro. Estes momentos são-me comuns durante a semana, se não é uma pessoa que cheira a raposinho ao meu lado, são raparigas que emprestam desodorizantes roll on como quem empresta canetas, são raparigas que não sabem que antes da maquilhagem se lava a cara, e depois admiram-se de se notar uma camada nojenta na pele, ou algo mais comum, raparigas que andam com o cabelo tão oleoso que parece que foi molhado em azeite, de facto há lá uma (que também se senta ao meu lado) que diz-se que lava o cabelo a cada quatro dias e não me admirava que fosse mesmo verdade porque no outro lá estava ela no meio da aula a por sombras, batom e uma mistura de base com primer ou corretor que fez questão com misturar com o topo da embalagem completamente cagado com restos de base e sabe-se lá mais o quê, mas a pior parte é que ela tirou da mala uma caixa de fio dental e tirou a porcaria que tinha nos dentes, não imaginam as caras que troquei com outros colegas, ela até se apercebeu.

Alguém me pode explicar se isto é normal? Eu estive uns tempos a pensar como é possível que as pessoas não se apercebem que cheiram tão mas tão mal, e falei com a minha irmã que é bióloga e ela disse-me que as pessoas que desde pequenas não eram educadas para higiene e viviam toda a sua vida assim, não se apercebem que cheiram mal porque estão habituadas, tal como pessoas que tomam banho todos os dias cheiram bem e nem se apercebem, agora eu pergunto-me, quando estas pessoas que cheiram a raposinho se sentam ao lado dalguém que cheira a roupa lavada e a cabelo limpo, não sentem um cheiro simpático? E não reparam que as pessoas se acabam por afastar ou estar a máxima distância possível para evitar o seu odor a camponês medieval (mentira, alguns camponeses medievais eram mais limpinhos)?

Antigamente entendia-se porque é que as pessoas cheiravam mal, mas antigamente toda a gente cheirava mal e por isso os odores passam despercebidos, até que vinham as pestes e os homens que pensavam que os perfumes resolviam o problema.Mas porra, estamos no século XXI, a revolução cientifica já foi há que séculos, as crianças são vacinadas e a maioria das pessoas tem acesso a uma banheira, e se vocês fossem sem abrigos eu entendia, mas não são, são adolescentes bem vestidos e que tem casa, e que até usam maquilhagens e vão-me arranjar desculpas para cheirar mal? Se vocês tem problemas de sáude e suam muito eu entendo, mas isso são coisas que à partida se tratam, vocês simplesmente são porcos, ponto final. Não, não é de todo culpa vossa, se vos tivessem ensinado a escovar os dentes duas ou três vezes por dia, a tomar banho pelo menos dia sim dia não durante a vossa infância e a manter as coisas organizadas, vocês iam ter hábitos de higiene básicos e não iam aproximar-se a mim a cheirar pior que um mendigo medieval. Depois temos que lidar com todo o tipo de cheiros horripilantes todos os dias. Haja paciência. 

A minha palavra não interessa, não passo de uma pirralha, a minha opinião pouco interessa ao governo, pouco faria mudar o mundo, não tenho direitos políticos, afinal eu só tenho dezassete anos e não sei nada da vida ao contrário dos que votam num partido porque sempre votaram nele e não sabem quem são os deputados que fazem parte dele e as medidas que levam à assembleia, se é que levam. Se é a minha geração que esta sociedade europeia pretende sacrificar para salvar os velhos que viveram nas eras de ouro do euro, então que seja, porque a minha geração não tem objetivos de vida, nem sentimentos, nem trabalha, nem tem ideias e nem criou uma mentalidade democrática ao contrário dos nossos pais, os órfãos do 25 de Abril que o seu lema democrático sempre foi “O problema é do estado, o estado que resolva!”. Então que seja, vão em frente com a vossa decisão, continuem com as greves quando ganham 1000 euros ou mais por mês, estagnem a economia nacional, deixei-nos perdidos nas estações de comboios ou nas paragens, que seja a minha geração que não tenha oportunidades de ir à uma universidade ou arranjar um trabalho, que seja assim se é o que custa vocês não quererem trabalhar.

Mas quando nós crescermos, e vos provemos que somos mais do que uma geração morangos com açúcar, que sabemos do que falamos quando o tema é política e economia, irão ver que os vossos jogos de caracacá não funcionarão connosco, não nos subestimem, não somos tão ingénuos como os bastardos e os órfãos do 25 de Abril, somos nós que ensinaremos aos filhos que estão para vir desta nação o que significa Democracia e o quanto custa um golpe de estado que mude todo o sistema. Vocês serão esquecidos, vocês não valem nada, se existe uma revolução em curso vocês são contrarrevolucionários, vocês são anti-patrióticos, vocês não merecem este país, os nossos reis justos que jazem em paz iriam ter vergonha vossa e cortar-vos-iam as vossas mãos, porque não trabalham, não as usam e roubam o futuro dos que ainda estão longe da morte. Talvez, um dia, quando vos ameacem ou trabalhas ou vais preso percebas que devias ter mudado há muito tempo, que não devias ter ameaçado o bom nome mal usado da democracia e percebas que eu tinha razão.

Mas o que te interessa? Eu não passo de uma miúda que não sabe nada da vida.