Sem bilhete, sem destino, sem futuro nem passado

Posted: February 6, 2013 in Bipolaridades, Cenas que escrevo

Gosto de estações de serviço, gosto de estações de comboios e gosto de aeroportos. Sempre nutri uma afeição por autoestradas, sempre andei de avião, e a primeira vez que andei de metro foi uma emoção, quando era pequenina queria sempre andar de metro mas tinha de me contentar com um carro, os comboios, só os conheci verdadeiramente nesta Europa.
Nos estados unidos eram as autoestradas, eu sempre adorei autroestradas, começava uma música a dar e eu tentava adivinhar a letra com palavras infantis sem sentido, eu nunca acertei, lembro-me de cantar sobre árvores verdes que via na janela com a convicção de que era aquilo que o cantor iria dizer, era claro que eu nunca acertava, mas eu não desistia.
Quando a autoestrada apareceu no meu distrito, instantaneamente -ou pelo menos, assim a minha memória acha-, surgiu um sentimento de progresso, de modernismo, de sair daquele sítio, de ir para algum lado melhor, e eu nunca perdi essa emoção, as autoestradas serão para mim sempre como o caminho limpo, rápido e fácil da vida, que nos levam ao futuro de uma forma simples, como os ricos que não conhecem crises e são felizes na sua realidade distante à realidade, como se eu me pudesse sentir como as pessoas normais por um momento.

Mas os comboios, esses e os caminhos de ferro são mais mágicos, mais teatrais, mais divertidos, sempre que vejo um Alfa a arrancar sinto aquele aperto na barriga de alguém que está a prepara-se para uma efémera viagem numa montanha russa. Uma adrenalina que me faz sorrir, me faz querer saltar para dentro daquele comboio sem bilhete, sem destino, sem futuro nem passado. Se vai para Lisboa ou para o Porto, tanto me faz, eu quero é ir.
Observo atenta, invejando cada pessoa que entra em qualquer um deles, e eu ali, sem destino, sem bilhete, sem malas de viagens, sinto-me uma desconhecida na minha própria casa, numa terra de ninguém, aquele lugar é seguro, há mais probabilidades de ninguém saber o meu nome nem reconhecer a minha cara, ninguém me fará perguntas, estou à espera de um comboio que não espero.

Os aeroportos são um caso curioso, vejo gente de todo o lado, que se veste das mais variadas formas, que fala línguas que nunca ouvi, se se quisesse fazer um estudo mundial estatístico num único sítio, bastaria escolher um aeroporto, há pessoas de todos os formatos e cores, e de todos os lugares. Gosto de aeroportos, a minha única preocupação é não perder o avião, gosto de imaginar os sítios onde me levarão, gosto de sentir saudades por uns momentos da minha pátria. Quando passo a segurança, parece que já não estou no mesmo país, atrás daquelas paredes transparentes estou em território internacional, aquele lugar é uma cápsula que me permite despedir-me de Portugal sem mo arrancarem dos braços repentinamente.
Gosto de mudar, gosto de ver o sol nascer em comboios e do sol a por-se em aviões, gosto de ver a cidade a afastar-se e gosto de ver cidades pequeninas de baixo dos meus pés, gosto de cruzar a fronteira e me sentir livre, longe da minha terra, gosto de cruzar a mesma fronteira e sentir um alívio por estar de volta.
Não vale a pena prenderem-me, eu vou fugir, eu fujo sempre, mas volto, mais cedo ou mais tarde, não te preocupes, eu amo-te, eu vou sempre amar-te por mais que te queira odiar, não vale a pena, eu amo-vos, eu adoro-vos, mas vocês nunca se preocuparão comigo, e espero que sintam saudades minhas quando o comboio arrancar, vocês merecem isto, vocês merecem isto porque nunca me quiseram enquanto podiam. Agora sofram, sofram o quanto eu sofri, vocês merecem, eu quero ver-vos a pedir-me que volte quando sabem que só vou voltar quando bem me apetecer, preocupem-se agora, falem para mim agora, façam o que entenderem. E quando eu voltar, não é para os vossos braços, é para a minha amada cidade que me embalou e me educou, a minha Grândula Vila Morena, que nunca me abandonou nem me traiu.

Não queres agarrar a minha mão e levar-me para o meio do nada? Eu quero ir para algum lado onde ninguém saiba a minha história nem o meu nome, quero perder-me outra vez. Mas só vou contigo com a condição de tu não me conheceres.

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