O que há de novo no Natal?

Posted: December 8, 2012 in Contemporaneonissimo

Eu tenho sorte de não estar já a fazer a fila no banco alimentar. Quando penso nisso, penso que quem tem com que pagar para comer em Portugal, Grécia e Espanha tem sorte, esta sorte não é uma sorte fácil e longínqua como a fome na África, esta sorte é dita e sentida no seu significado mais pleno, é quase como se estivéssemos num campo de batalha e sabemos que a próxima bomba lançada ou bala disparada pode atingir-nos, e sentimo-nos com sorte por estarmos vivos, parece que quantas mais pessoas feridas e prejudicadas na batalha, as estatísticas contra nós aumentam, e nos sentimo-nos com sorte por ainda estarmos vivos porque podemos ser os próximos a cair na miséria, e a frase torna-se mais sólida com o tempo. Sinto-me como a Katniss nos jogos da fome, entram vinte-e-quatro e só sai um da arena, pode acontecer a qualquer um, os nossos lideres colocaram-nos nestas situações sangrentas e, a final, somos todos iguais e temos todos o mesmo objetivo: sobreviver ao caos. Vemos o que é ter sorte com outros olhos, parece que as coisas que só aconteciam aos outros nos começam a acontecer a nós. Já vejo tanta falta de humanidade nesta Europa que está a lançar-se aos leões.

Eu não ouço falar da crise mundial, europeia e portuguesa todos os dias, eu vivo-a, todos os dias desde 2011 eu acordo para viver esta crise quando nos prometeram melhorias para 2013, hoje, sabemos que não,  eu realmente nem me preocupo com uma melhoria, eu preocupo-me em primeiro lugar com a estabilização. Aumentem as exportações, aumentem a produtividade, apostem na agricultura e no mar, apostem nas engenharias, proíbam as greves que aumentam a dívida se for preciso. Ou abdicam de um pouco ou esta nau vai afundar-se, eu não posso fazer nada, sou apenas uma miúda, apenas deixo o conselho, porque se for para falarmos de direitos humanos, eu posso começar pela parte em que eu vou pagar uma dívida que não devo, pelos lanches que eu deixo de comer para poder almoçar ou ter dinheiro para o autocarro porque não quero pedir mais dinheiro aos meus pais, as minhas poupanças desde que nasci que tive de emprestar aos meus pais ou gastar, a bolsa que eu não sei se vou ter, os doze anos que ando a fazer quando há ministros que tem equivalências sem estudar. Se estivesse no poder eu despedia todos esses parasitas que recebem mais de 3000 euros por mês e fazem greve, exilava-os até, porque amigos, estamos em crise, e se queremos manter a democracia se calhar era melhor colaborarmos um pouco uns com os outros.
Colaborar. É aí onde quero chegar. Caridade deixou de ser caridade, horas extras deixaram de ser horas extras, partilha deixou de ser partilha, empréstimo deixou de ser empréstimo, para mim tudo o que implique ajudar outras pessoas é o verbo colaborar, colaborar é urgente, mesmo que nos custe um pouco. E eu lembrei-me dalgo que nunca tinha feito parte da minha realidade, apercebi-me que o Natal não era sobre muitas prendas e nem sobre Jesus sequer, não para mim, o que o Natal realmente significa é sermos felizes durante dois dias e tentar fazer os outros felizes, esquecermos esta situação que vivemos por um pouquinho, é oferecer algo a alguém que precisa, ajudar o outro, é aqui que eu peço coisas como meias térmicas e no máximo livros, porque eu não preciso de um iPhone, eu preciso de meias térmicas. Ou pensam que só os sem abrigos precisam de algo que só nós podemos dar? Ofereçam coisas úteis aos vossos amigos e familiares, e sintam-se agradecidos por receber roupa no Natal, não vale a pena serem muito esquisitos a estas alturas, é só uma crise e vão ter de sobreviver ao Inverno.
Nós precisamos do Natal este ano, no ano passado fez-nos bem, precisamos de trazer de volta os antigos valores familiares, de chocolate quente e de um cobertor, de músicas natalícias que nos ponham bem dispostos e de colaborarmos uns com os outros, porque até que os países ricos não aceitem que também eles vão ser afetados com este vendaval e que a crise é mundial, ninguém vai ter pernas para andar. Será um pedido demasiado irrealista para fazer ao pai natal?

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Comments
  1. FireHead says:

    É por isto que eu devo sair daqui e voltar para a minha terra, pois o futuro parece estar mesmo na Ásia. Por aqui quiseram o 25 de Abril de 1974, vibraram com a queda da ditadura, rejubilaram só de pensarem que passaríamos todos a ser ricos assim do nada… e agora apanham as canas.

    A Europa? É bem feita também. Apostasia, União Europeia, modernismo…

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