Archive for November, 2012

É incrível, em todos os malditos vídeos portugueses do youtube sobre os problemas da pátria, sobre as nossas vitórias como nação e até no hino, há sempre um comentário dum brasileiro a xingar, a espalhar um preconceito qualquer que já deveria ter sido ultrapassado, há quanto tempo mesmo? E há claro, sempre um comentário parecido com o que eu acabei de dizer no top comments.
No famoso vídeo sobre o que os finlandeses deveriam saber sobre Portugal podem ver brasileiros e portugueses a discutir e a insultarem-se duma maneira que se fosse na vida real havia um genocídio e uma guerra ultramar, o mais óbvio seria os finlandeses insultarem-nos a nós porque apesar de não os estarmos a insultar, estamos a pedir-lhes dinheiro, não acham? Os brasileiros não tem nada haver nem com a troika nem com a crise portuguesa, não percebo porque vem insultar-nos em vídeos Europeus.
E eu decidi ver se em vídeos brasileiros também não existia um trollzito como nos vídeos tugas a chamar as mulheres portugueses de peludas e a dizer que nós temos culpa do estado do Brasil mas em versão portuguesa, e apesar de me ter custado a encontrar, por uma questão de estatística, não pensem que é por outra coisa, acabei por encontrar no hino brasileiro.

Foi uma seleção que me custou a fazer porque para além do nojo que tive ao ler comentários tão rudes, eu senti-me bastante ofendida, primeiro porque haviam brasileiros a responder preconceituosamente ao troll português e a insultar o país que lhes deu a língua que falam, e segundo porque muitas vezes não sabem a história do próprio país, e custou-me não responder (mas não o fiz porque não valeria a pena) porque estas pessoas sim queriam dizer o que comentaram, não são apenas trolls, e eu quero apenas dizer que eu própria lamento que Portugal tenha tomado más decisões com o Brasil no passado, acham que é fácil para nós nas aulas de história saber que éramos os heróis do mar, o nobre povo e que nos não fizemos nada com isso? Podíamos ter criado uma burguesia capaz de concorrer com a Holanda e a Inglaterra, podíamos ter dito não quando os ingleses nos fizeram o ultimato do mapa cor de rosa, podíamos ter feito muita coisa e hoje nós estamos pior do que vocês, sim nós estamos pior que vocês nós apenas estamos na Europa e estamos quase ao ponto duma crise política, nós não passamos fome mas estamos a passar um mau bocado, nós nunca tivemos manifestações como andamos a ter e há uma enorme tenção em toda a Europa por causa da crise mundial, acham que é fácil manter o orgulho pela nação quando cometemos tantos erros? E lamento que os italianos, os holandeses, os franceses e os ingleses não tivessem chegado ao Brasil primeiro, lamento imenso. Lamento muita coisa acerca do passado do meu país, mas eu não culpo nem os ingleses nem os espanhóis nem os chineses da nossa situação económica, e sabem por quê? Porque as medidas que tomamos ou deixamos de tomar foram e são nossas e só nossas, mesmo quando os espanhóis nos governaram durante setenta anos porque nós decidimos atirar o espanhol pela varanda abaixo, nós expulsamos os ingleses quando a família real fugiu para o Brasil na altura das invasões de Napoleão (sim, os ingleses assumiram o poder militar e torturaram muitos portugueses, queimaram-nos vivos e isso criou ainda mais motins, nós não desistimos) e somos nós que não tomamos medidas para poder concorrer com o comércio das lojas do chinês e ainda fomos capazes de vender dívidas e empresas à china. E sabem uma coisa? Vocês já são livres há tempo suficiente para tomarem as decisões correctas e fazer do Brasil um país tão desenvolvido como a União Europeia ou os Estados Unidos, ou acham que a independência não custou aos norte-americanos? Lamento, mas o Brasil já não nos pertence há séculos, vocês são independentes ou acham que Portugal criou uma conspiração para controlar a economia brasileira? E quando argumentos do vosso lado negativo não funcionam, em comentários ainda são capazes de dizer que são uma das potências mundiais. Sim, nesse caso, Portugal já não tinha nada a ver nada com o assunto, porque isso já tinham conquistado sozinhos, estou certa?

Mas eu não me fico por aqui, porque a maneira como os portugueses reagiram aos comentários dos trolls brasileiros também me chocou, porque tal como os brasileiros que quiseram dizer o que disseram, estes portugueses reagiram exatamente iguais. Trazem assuntos que não me dizem respeito como a história dos índios, que se não fossemos nós eles andariam pendurados as árvores, e claro, no fim a discussão vai dar ao mesmo porque os brasileiros vão buscar os seus argumentos, e os portugueses vão buscar os seus e enfim, quando terminam só se geram pessoas que detestam o Brasil ou Portugal.
E choca-me porque por culpa dum troll criam uma guerra desnecessária entre dois países que devem ser amigos e considerar-se lusófonos, pessoal nós partilhamos uma cultura, nós partilhamos tanta coisa! Mesmo que eu seja portuguesa e tu sejas brasileiro(a) eu sei que eu teria mais facilmente uma conversa interessante contigo do que com um estrangeiro qualquer, para mim vocês aqui não são estrangeiros quais queres entendem? A minha dashboard do tumblr não seria a mesma sem as brasileiras hilariantes, adolescentes que tem os mesmos problemas que eu, que detestam a escola tal como eu, que detestam que a internet caia e que muitas vezes gostam das mesmas séries que eu, dos mesmos filmes, das mesmas bandas e que lêem na mesma língua que eu. E é triste que hajam pessoas que querem destruir isso. É tudo o que tenho a dizer.

Okay, eu tive mesmo de fazer print deste! É a única pessoa que merece ter aquela coisinha preta
MORRAM SUAS PESTES FEIAS PELUDAS!
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Escrito no dia 25 de Outubro de 2012, no dia que se seguiu da manifestação que houve em Aveiro, em Coimbra e no Porto de estudantes do ensino secundário (na teoria do básico também mas miúdos de 12 anos ainda não tem ou não deveriam ter o estômago para digerir o que se tem passado nos últimos dois anos). Eu não fui, e por ter sido um bocado estúpida e ter faltado queria fazer pelo menos um elogio a quem foi porque me representaram na manif. A próxima podem crer que vos acompanho.

Nós somos os filhos órfãos da democracia. Aprendemos sem os nossos pais nos ensinarem, porque os nossos pais e os seus pais podem contar-nos histórias de Grândulas Vilamorenas, sobre Salazares, sobre Cravos mas não sabem dizer ao certo o que é a democracia. Nós somos diferentes. Há algo diferente em nós. Chamem-nos de putos, chamem-nos de imaturos, digam-me que eu sou apenas uma pirralha, podem dizer que foi uma birra se quiserem porque vocês nunca entenderão, vivem demasiado presos no vosso passado colonial e mundo salazarista que acham que tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá depois não será nada, porque vocês passaram muitos trabalhos e no vosso tempo tudo foi muito difícil e custoso e nós somos crianças mimadas com tudo de mão beijada, claro está.
Há algo diferente em nós, e vocês não reparam porque acham que tudo é uma fase em nós, uma mudança de humor como a subida e descida do preço do petróleo, mas se quiserem ouvir-me, se quiserem saber a realidade dentro do que acontece dentro das paredes das secundárias e colégios, eu conto-vos histórias.
Admito, muitos que saltam e gritam só saltam e gritam porque são adolescentes, são rebeldes sem noção da causa, mas não somos todos assim, eu explico-vos:
Eu mudei, os meus amigos também mudaram e os meus colegas também, alguns estão a tomar decisões dolorosas, vemos os nossos pais a procurar emprego no exterior e nos piores dias saímos da escola sem saber muito bem se teremos uma bolsa, ou se valerá a pena ter uma bolsa. Conheço quem faça planos rebuscados para estudar no exterior no final do décimo-segundo, conheço quem tenha pais que vão trabalhar para o exterior e ficam a viver com os avós, ninguém tem o direito de separar famílias. Afinal mandaram-nos emigrar.
Ouço pequenos relatos de quem antes almoçava ou jantava fora todos os sábados e há anos já não vai, as praças de restauração dos centro comerciais estão vazios, os cafés estão vazios, os restaurantes estão vazios e as lojas tem uma esperança média de vida de cinco meses.
A nossa geração está a viver uma crise que outras não viveram, não temos tantas coisas como os miúdos doutros tempos, não passamos fome, mas foi uma mudança, e as mudanças custam, e este tipo de coisas mudam-nos.

Não vivemos no desespero, somos crianças felizes que conversam em sotaques esquisitos, cantam músicas estranhas e baixam a voz quando se fala de sexo, dizemos parvoíces e contamos piadas. Não somos todos iguais, é verdade, a minha geração é tão dramática e depressiva, se fizessem um estudo sobre em que geração desde há 100 anos haviam mais casos de pulsos cortados e depressões, a minha ficaria em primeiro lugar, a situação é tão grave que hoje na brincadeira uma amiga minha disse que eu cortava os pulsos e a minha colega russa puxou-me os pulsos e virou-os para verificar que eu não o fazia.
Mas falemos do que aconteceu e acontece durante crise, nós crescemos, sim era o que nos ia acontecer se não houvesse crise, só que teria sido diferente. Nós mudamos com a crise duma maneira que jovens que não passam por uma crise não mudam. Há algo que faltou na nossa educação quando éramos pequenos, uma palavra muito bonita chamada Democracia, não culpo os nossos pais, eles não sabiam e não precisavam de saber, o estado que tratasse do assunto. Hoje as coisas são diferentes, o povo está a procurar formas de tratar do assunto, e estas coisas que acontecem no país não nos deixam intactos, todos os dias há algo de novo, as manifestações são frequentes e nós também temos de participar porque nós somos a juventude da nação e somos o maior investimento possível, nós estamos a procurar formas de sermos ouvidos e não nos vamos calar, nos estamos mais unidos do que nunca e vamos erguer-nos, porque se há uma área, para além da saúde, que não pode ser cortada é a educação, mas eu entendo, é preciso um curso superior para entender que se fazem cortes na educação vão perder-nos.

Ai, cortes não, cortes não, cortes não!