Archive for November, 2012

Eu não sou nenhuma santa e admito que já fui uma verdadeira cabra com algumas pessoas, e quando digo que já fui uma verdadeira cabra estou a querer dizer que já fui nalgumas situações uma mean girl, já gozei com pessoas nas costas, já disse que uma rapariga era feia, já me ri em situações que deveria ter ficado de boca calada e nalguns momentos já cheguei a ter uma auto-estima demasiada elevada, e é esse um dos temas que eu quero falar neste post, a auto-estima demasiado elevada das pessoas ou demasiado danificada.

Entre pessoas como eu que sabem admitir que a raça humana está recheada de terríveis defeitos e Deus nosso senhor nos abençoou com uma terrível habilidade para falhar e errar que quase parece uma arte, e pessoas que não sabem admitir quando são más e o pior, ainda acham que é fixe cometer erros com as outras pessoas, há uma grande distância.
Ao longo da minha vida fui-me cruzando com este tipo de pessoas, ou melhor, crianças que não eram e não são crianças nenhumas, que sempre gostaram de me fazer sentir mal comigo própria, sempre me deitaram à cara que eu era feia, que eu era burra, que eu não era o suficientemente boa em nada. Desde ao rapaz que me deu um murro no estômago à rapariga que me disse que eu não prestava a jogar basket e me fez esconder de baixo de uma bancada a chorar, desde o rapaz que me insultou e eu perdi a paciência e quase lhe bati à rapariga que dizia que eu era louca, entre outros. 
O meu verdadeiro problema foi eu ter onze anos na altura em que o bullying começou, eu não sabia que eles não tinham razão, eu não sabia que no futuro haveriam adultos a dizer que tinha uma inteligência fora do comum e que de vez em quando surgiriam rapazes que diriam que eu era bonita e que me trariam problemas. Eu não sei porque é que eu era a rapariga deixada sozinha nos corredores, porque quando penso na rapariga popular da minha turma, a verdade é que ela era uma feiosa e mesmo assim ela tinha os rapazes garantidos incluindo o rapaz que eu gostava. E, estas filosofias não me fizeram bem porque eu comecei a pensar que era gorda porque não era uma magricelas, que era burra por ser má a matemática, que era feia por não usar roupas de marca e de moda, que nunca jogaria bem basket como outras raparigas, que eu era demasiado alta, que eu nunca teria um namorado, etc, etc. 
É triste porque as crianças deveriam ser inocentes, não deveriam fazer sentir mal as outras crianças, a culpa é delas? Sim e não. A culpa é delas porque se eu me apercebia com essa idade que quando batia num animal podia chegar a matá-lo e que quando chamava nomes a outra criança ela choraria, então eu não deveria fazê-lo, porque eram coisas tristes. Por outro lado a culpa não é delas porque não foram elas que criaram os concursos de beleza, as revistas cor-de-rosa, as celebridades e muito menos as modas que atingem massas e os padrões de inteligência, elas eram e são vítimas dalgo que os adultos controlam, os adultos tem culpa do bullying, foram eles que criaram sem criar seres tão cruéis.
Ainda hoje no secundário sou uma rejeitada, não como era quando era garota mas sou, e às vezes os fantasmas dos corredores do meu antigo colégio me perseguem e me batem e insultam no corredor de cacifos até que eu desista de correr e caia no chão e chore e me sinta como há cinco anos. Não sou eu que choro, é uma menina de doze anos que acha que eles tem razão e se esquece dos momentos nos quais foi valorizada.
Sim, hoje é diferente, eu sei ler a personalidade dos que me odeiam, as pessoas que me querem atingir tem problemas de autoestima, sofrem de daddy issues, são raparigas que tem problemas com elas próprias e como toda a gente (engraçado, algumas são umas verdadeiras feiosas e a personalidade não as ajuda), hoje eu sei que não sou a única porque conheço muita gente que é como eu, sabem, os populares pensam que todo o mundo os ama mas é mentira, eles vivem nessa podre ilusão, devíamos ter pena deles porque nós somos normais, é normal que hajam pessoas que nos querem fazer sentir mal, eles tem um nariz demasiado empinado, são uns pobres coitados que em vez de investirem neles próprios insultam qualquer pessoa que seja diferente, qualquer pessoa desde que cumpra um ou mais dos seguintes critérios:
  • Veste roupa diferente
  • É um pouco mais inteligente que o normal
  • Tem um sotaque diferente
  • Parece mais novo ou mais velho para a idade
  • É demasiado bonita
  • Não é tão atraente como as outras raparigas
  • É swag
  • Não é swag
  • É bom(boa) nalguma coisa – pelo que deve-se dizer que tem a mania e que acha que é mais do que os outros por ter algum talento
  • É má nalguma coisa – É má nalguma coisa? É burro, inútil, estúpido, não sabe nada!
  • Faz vídeos para o Youtube – Mais uma vez é uma pessoa que acha que é mais do que os outros e que quer aparecer
  • Não sai à noite todos os fins de semana
  • É puta – Puta é uma rapariga que tenha tido vários namorados ou que não goste de compromisso e se fique pelas curtes, é bom lembrar que um rapaz que se fique por curtes deve ser honrado e não criticado, ou pelo menos não digas nada porque sabes bem que é normal 
  • É virgem – Virgem é qualquer pessoa que não tem um histórico público de relações (se as pessoas acham que aquela pessoa nunca teve um namorado(a), então essa pessoa nunca teve um namorado(a) ), mesmo que já tenha tido relações sexuais se essa pessoa não fizer entender aos populares que sabe dar um beijo, então essa pessoa nunca deu um beijo
  • Corta os pulsos – Se é uma pessoa que corta os pulsos e nós não sabemos nadinha da vida dela é óbvio que é uma pessoa com problemas psicológicos que se está a armar em coitadinha! Gozemos com essa pessoa porque é errado cortar os pulsos, não é ao tentar compreendê-la que a haveremos de ajudar!
E se as pessoas cometem suicídio depois de anos de gozarmos com eles e de lhe batermos, o que dizemos? 
         -Oh, não acredito! Gostávamos tanto dele(a)! Tinha tanto talento, era tão bonita, era um modelo a seguir! Como foi capaz? A culpa é da sociedade! 
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Este é mais um daqueles desafios que todos fazem e ninguém lê. Tem algo haver com o grupo blogger do facebook, mas eu pretendo que haja uma distância entre as duas redes sociais. Vou lá ver umas coisinhas de vez quando mas não posto lá coisas porque a minha conta do fb é pessoal e privada. Não tenho paciência para dizer 100 factos, as 20 perguntas já dão trabalho só por si. 


1. Nome: Victória Esseker
2. Idade: 16
3. De onde és? Sou de muitos sítios, mas considero-me aveirense, sendo o sítio onde vivo há mais tempo e me sinto bem. 
4. Porquê a escrita? Como te sentes quando escreves? Umas vezes sinto-me serena, outras vezes sinto-me deprimida, é mais estranho escrever feliz, mas pode acontecer. Quanto ao acto em si, seja qual for as emoções, especialmente negativas, quando escrevo elas são como canalizas e tudo se transforma na mesma massa e um sentimento de alivio. 
5. O que te levou a criar o blogue? Uma rapariga mostrou-me o blog dela e quis fazer os desafios que ela tinha lá
6. Desde que criaste o blogue sentes-te uma pessoa diferente? Em que medida? Sim, o blog não me mudou, acompanhou a minha mudança, mas as pessoas que sigo do blogger ajudaram-me a crescer
7. Já conheceste alguém no blogue? Pessoalmente ou não? E essa pessoa mudou a tua vida? Não, eu não sei se realmente quero conhecer alguém do blogger porque quero manter uma distância do mundo real e deste mundo virtual maravilhoso. Por outro lado seria fantástico porque haveria um sentimento de que essas pessoas fantásticas são reais. 
8. Um blogue que tenha mudado a tua vida e porquê? Olha, há vários, o blog que já fechou do Martini Bianco (não sei, acho que era por ser um gajo e isso mostrou-me um lado novo do mundo masculino), o blog da Hayley (por me ter mostrado novos horizontes na escrita), o blog da Luna que também fechou (não sei bem explicar por quê, ela parece saída dum conto de fadas e eu ando metida nessas coisas e fui buscar inspiração a Luna) e o blog da Boneca de trapos (pela sua voz que não cessa e só gritaria mais se a tentassem calar).
9. Qual é o teu escritor favorito? O José Luís Peixoto 
10. De quem do blogue gostarias de ler um livro, e porquê? Já li! Não Confies da Hayley, não li o livro, mas li o pré-livro
11. O que gostas de escrever? Coisas pessoais, twisted fairytales, sobrenatural, críticas e o que sair
12. Gostas de ouvir música enquanto escreves? Sim, e se a música não for adequada ao que estou a escrever fico desorientada e posso desistir, por isso tenho um mp3 com 8 megas com mais de 500 músicas. Eu estou muito próxima ao mundo da música e da literatura e juntá-los é tipo orgaaaasm
13. Qual é o momento do dia em que a escrita te chama? Noite, estou a educar o meu cérebro para que se habitue a dormir à noite e a escrever durante o dia, mas se tiver de férias eu dou-lhe férias e deixo-o fazer o que quer
14. O que te inspira para escreveres? Tudo. Desde o amor ao desamor, ao terror às coisas boas da vida, da guerra à paz, da política às cenas que eu vivo
15. Gostas de escrever para alguém em especial? Não, às vezes “escrevo” para as pessoas e sou capaz de dedicar livros mas eu escrevo ou para mim ou para quem quiser ler
16. Quando começaste a escrever? As primeiras tentativas surgiram aos 14 anos 
17. Escrever: acto racional ou puramente inspiracional/emocional? Os dois
18. Já escreveste um livro? Ou gostavas de escrever? Estou nisso. Não lhes chamo livros, são projectos que tenho de ver como os quero publicar, mas a ver vamos o fruto ainda está muito verde
19. Quem te rodeia sabe que tens um blog? Bem, tive de criar “sistemas de segurança” para evitar que o meu cunhado cuscasse, o que eu sei que já fez. Tirando acidentes, os meus amigos mais próximos, a url actual só a minha melhor amiga.
20. Onde gostas de escrever? Quarto, lugares boémios, noutros países, em contacto com a natureza, bibliotecas, sala. Desde que não me chateiem eu estou bem. 

Estar doente vs Não estar doente

Posted: November 19, 2012 in Bipolaridades

Hi everybody!

A Victória está doente, esteve de cama (ou melhor sofá) o fim de semana inteiro, tem dormido mal e tem tido pesadelos por causa da febre e das dores de garganta e ontem pareceu que tinha as dores do período mas por todo o corpo – desculpem, mas é a única comparação que encontrei para caracterizar a minha dor.
Não, não fui ao médico, e muito menos às urgências, o que teria acontecido caso precisasse dum médico qualquer que me desse uma receita médica depois das cinco (acho eu) e se as vossas urgências forem como às do hospital de Aveiro entenderão o por quê de eu querer estar longe desse lugar, se eu fosse para lá esperaria o tempo suficiente para ficar com amigdalite, depois com pneumonia e só buscavam o meu cadáver três horas depois.
Já não ficava assim doente desde a gripe A que me forçou a ficar em casa durante uma semana, o que foi uma pena e me custou bastante pois não fui as aulas nessa semana lol não, e deve ser a primeira vez que eu falto as aula (tirando as de moral que não contam) no secundário (sim, eu sou aplicada u.u) E isto de ficar em casa tem muitas vantagens, tipo:

  1. A partir do momento em que eu tenho febre os meus pais passam a tratar-me como se eu tivesse três anos ou seja fazem-me tudo porque estou deitada o tempo todo
  2. Não posso fazer os tpc’s nem fazer apontamentos que pena
  3. Vou faltar as aulas que pena também
  4. Não tenho de conviver com os idiotas da minha turma merdosa tenho ainda mais pena ui
  5. TER TEMPO! EU JÁ NÃO SABIA O QUE ERA TER TEMPO. SABEM QUANDO NÃO TEM NADA PARA FAZER OU NÃO PODEM FAZER NADA E ENTÃO FICAM A RELAXAR? Exato. 
  6. Já tive tempo para decorar qual é o número do canal da fox e da axn e a alguma programação da tv
  7. Devo ter andado a beber 5 chás por dia *o* 
  8. Descobri uma mini-série chama Call the midwife bastante interessante pós-segunda guerra mundial
  9. Tenho visto mais phineas e ferb do que nunca yay!
Mas há vários contras: 
  1. Se eu não faço os tps agora vou ter de fazê-los depois ou vou levar falta, se eu não fizer os apontamentos agora vou ter de fazê-los depois e é capaz que tire más notas, se não faço os trabalhos agora vou ter de fazê-los depois e à pressa. Por favor, não podíamos ter uma semana de férias em novembro? 
  2. Não posso fazer nada para além de estar deitar e ir ao pc se não me doer a cabeça
  3. Não consigo comer qualquer coisa, para além do facto que não tenho fome e fico cheia facilmente. Pareço um bebé
E isto de estar doente é chato, não gosto mas pelo menos tenho um dia de folga e uma autorização para não fazer e.f. 

Sabem as primeiras impressões? Aquele primeiro olhar, sorriso que as pessoas nos lançam ou nós lançamos às pessoas? Algo tímido, profissional, por questão de educação? Eu quase nunca me engano quando tenho uma boa ou má primeira impressão de alguém, a maioria das vezes quando tenho uma óptima primeira impressão de alguém essas pessoas acabam por ser minhas grandes amigas, quando tenho uma má impressão, essas pessoas ficam entre a linha da indiferença e a linha do ódio de estimação, fáceis de domar. E ontem eu e uma das minhas novas colegas tivemos uma curta mas interessante conversa sobre isso.

       -Há uma cena que te queria dizer há algum tempo – disse ela
       -O quê? Tens um pénis? Já sabia!
       -Não, não é isso, mas também! Sabias que no primeiro dia de aulas tu me fizeste lembrar de uma das minhas ex melhores amigas? Até em questões psicológicas. Só que tu és mais fixe do que ela era. Ela fumava e tal.
       -O que é que ela te fez?
   
E ela lá contou a história, e eu lá lhe confessei que eu antes fumava e a longa história de uma das pessoas que me fez deixar de fumar.

Ps: Não, ela na verdade não é hermafrodita, eu é que gosto de brincar com as pessoas com as minhas ironias.

Se calhar alguns de vocês lembram-se do post que eu fiz sobre aquela vez que telefonei aos bombeiros, numa altura em que uma rapariga da minha turma tinha ataques de pânico constantemente. Este ano há uma situação parecida, mas que eu não estava habituada. Desmaios. São horríveis, quer dizer, a maneira que as pessoas perdem o equilíbrio parece que caem mortas.
Esta rapariga que desmaiou não desmaiou uma única vez, é a terceira vez que a vejo a desmaiar, e não estou a contar com todas as vezes que ela desmaia e eu não estou lá para ver. Ontem, ela desmaiou na aula e perdeu a força no pescoço deixando cair a cabeça para trás, o meu único pensamento foi agarrem-lhe o pescoço e a cabeça!, porque é isso que eu fazia ao meu sobrinho há umas semanas atrás (antes de ele começar a ter alguma força) por ser um bebé e não ter força suficiente e poder partir o pescoço.
Eu e a minha colega de mesa que estávamos atrás dela afastamos as nossas mesas e rapidamente apareceram dois rapazes para a poder deitar, depois eu e um rapaz fomos abrir as janelas e duas pessoas saíram para buscar um copo de água com açúcar e uma funcionária, tudo sem pânico, toda a gente calma, menos a professora (por isso já sabem, a minha turma está bem preparada para a evacuação do fim do mundo). Depois à tarde quando subi as escadas vi uma multidão e lá estava ela deitada no chão, de novo.
Hoje, no meio da aula de geografia, ela voltou a desmaiar. A cabeça dela caiu de rompante na mesa quando ela perdeu o equilíbrio. O procedimento que fizemos ontem foi repetido, mas desta vez fui eu a correr à procura duma funcionária porque estava mais perto da porta. Corro e vejo se há alguém no sítio onde é suposto estar uma funcionária, chamo, digo em voz alta a minha colega desmaiou, preciso de uma funcionária ninguém me responde, volto a correr, não vejo ninguém, vou a sala de professores onde ninguém me pode ajudar, vou ao bar e finalmente há alguma funcionária que me diz quem chamar.
Volto revoltada para a sala, insultando mentalmente as velhas que deveriam estar no sítio delas, que deveriam limpar as salas, que deveriam ser menos antipáticas, que deveriam fazer alguma coisa mas não fazem coisa nenhuma. E só depois é que me lembrei. A greve.

Isso, exijam os vossos direitos enquanto esta rapariga pode morrer pela falta de competência e de funcionárias, porque se houvesse uma funcionária naquele corredor, tudo teria sido mais rápido, sabe-se lá o que ela tem (aqui já nem vou falar da falta de competência do nosso sistema de saúde). Palmas aos que exigem os seus direitos! Palmas! Mesmo que isso tire o direito à vida duma jovem, mesmo que isso seja um gasto que eu tenha de vir a pagar enquanto vocês estiverem dois metros de baixo da terra. Então não vivemos numa democracia? Cada um faz o que quer.

PS: Eu sei perfeitamente que as funcionárias da minha escola não ganham 3000 mil euros por mês, mas uma parte bem significativa das pessoas que fazem greve são capazes de ganhar por volta disso

Lembrei-te de escrever este texto como me lembro de escrever todos os textos que me lembro de escrever,  e apeteceu-me “mandá-lo” para o concurso da Hayley (porque é ela que vem cá buscá-lo), que agora que penso no assunto podia ter divulgado, mas pronto, desculpa lá Hayley. Eu acho que publicaria o texto de uma maneira ou da outra, não estou a pensar em ganhar créditos com isto, ele continua aqui publicado e vale o mesmo para mim premiado ou não. Nem acho que seja algo com um valor literário ao ponto de ir a concurso, hahaha, mas pronto, não me lembrei de mais nada! 

O batimento do coração da minha mãe a acalmar-me, o meu pai a pegar-me como um avião e eu a fechar os olhos para tentar adivinhar para onde ele me levava, a minha irmã mais velha a fazer uma concha com as mãos enchendo-as de água para de seguida me molhar o cabelo e cara e eu me rir, uma menina a correr nos seus patins e eu nos meus num pátio longínquo, um corredor de cacifos do passado onde eu e a minha irmã sem laços de sangue partilhámos segredos e criámos expetativas, um rapaz a encostar os seus lábios nos meus num movimento tão desastrado, tosco e especial. E tu, deitado num berço de hospital, vestido e amarelo, com mãos pequeninas e um choro tão meiguinho e dócil.
De todas as maneiras o amor sempre me surpreendeu e tem feito mais do que manter-me inteira, tem-me feito viver, e surpreende-me como é que algo tão bom ainda não tem um imposto acrescentado. E tu um dia vais aprender – um dia que não queria que chegasse porque recorda-me do meu e do teu inevitável fim – um dia tu vais aprender mais do que uma maneira de amar e vais ver que não será só uma questão de sobrevivência, vais entender que é pelo amor que nós vivemos, e que nós vivemos pelo amor. Esquece a vingança, esquece as guerras, esquece o trabalho das nove às cinco, esquece o dinheiro, esquece os vícios, esquece tudo o que te faz esquecer de viver e promete-me aqui e agora, antes que seja tarde de mais, faz-me e cumpre esta promessa, promete que vais ser um homem que me vou orgulhar depois de eu estar dois metros debaixo da terra. Tudo o que quero é que chegue a ti esta minha mensagem, feijão, tudo o que quero é que ames e sejas amado.
Talvez esteja a desperdiçar o meu tempo a escrever este texto, porque quando tu o leres, o mais provável é que aqui não haja nada de novo para ti, mas neste preciso momento presente para mim e passado para ti, o mundo é um inteiro lugar por descobrir para e por ti. Tu és tão pequeno, tens um sorriso tão espontâneo, tão inocente e é-me difícil interiorizar que já fui tão casta como tu és hoje, nesse ontem que tu lês. Sabes, serve-me de algum consolo nos tempos que correm  e que eu corro saber que já fui uma criança.
E é tão difícil compreender a tua existência, sempre foste um sonho não sonhado, um sujeito hipotético e imaginado que nunca desejei mas sempre desejei, e quando soube que estavas a chegar eu não acreditei e sentei-me no sofá petrificada a querer chorar de felicidade. Era uma notícia demasiado boa para as vésperas do ano do fim do mundo. E aqui tu estás, com os teus olhos grandes fixos em mim, a sorrir quando tu deixas que eu te faça sorrir, a chorar pela tua mãe numa expressão rugosa e vermelha, a dormir e a sonhar com pequenas coisas, a dormir.
Dorme meu pequeno, dorme agora porque a vida promete-te noites insones, promete-te dias cansativos que quando a noite cai sentes que não te deveriam cansar porque ao fim e ao cabo foram inúteis, promete-te noites em branco quando estás demasiado cansado para dormir, promete-te dias longos nos quais tudo e todos parece que querem ver-te cair dum abismo. Mas eu prometo-te aqui e agora, que em muitas dessas noites que estarás acordado depois da meia noite haverá pelo menos uma noite que consideras a noite da tua vida, poderás estar acordado porque alguém não quer sair dos teus pensamentos, poderás estar acordado a trabalhar nalguma coisa que seja realmente importante para ti, poderás estar num bar a beber e a rir com as pessoas mais importantes da tua vida, poderás estar a passa-la com a pessoa que mais amas, por isso, quando estiveres a chorar a altas horas da madrugada, lembra-te disto que eu te digo. E o dia, mais comum, mais banal não te irá desiludir todos os dias, dá-lhe a oportunidade de te mostrar uma nova maneira de amar, e se não houver uma nova maneira de amar continua a amar como já sabes, e se nalgum momento não queres amar porque sentes que o amor te crava espinhos no teu corpo, ama-te ao menos, porque no momento em que te voltares a render ao amor, não valerá a pena o meu amor, o amor dos teus pais, de toda a tua família, dos teus amigos e dalguém que faz o teu coração palpitar mais depressa se tu não te amas, e esse amor pessoal e intransmissível, não te magoará tanto, porque a pessoa que tu és é a pessoa que conheces melhor.
Eu sei, eu sei, às vezes acordamos e vê-mos um monstro no espelho, às vezes as nossas atitudes e palavras deixam-nos tontos e entorpecidos, não acreditando no que acabamos de fazer ou dizer. Nada disso deixa de ser natural, por mais macabro que te pareça seria contra a natureza humana não conheceres o monstro que habita nas tuas entranhas, usa as tuas habilidades humanas e saberás dominá-lo e usá-lo para o teu próprio proveito sem magoar os que tu amas e te amam. Leva tempo, rapaz, mas não desanimes, todos nós passamos por esses momentos de dúvida que baixam as nossas guardas e os demónios aproveitam as nossas fraquezas para entrar nos nossos corpos, expulsa-os do teu ser, usa o amor para combate-los, diz-me, o que entende o Diabo do amor?
Deixa o amor que te faça sorrir, deixa o amor agarrar-te o pulso e conduzir-te para uma dança, eu estarei lá algures a levantar o meu copo para brindar a tua existência, deixa que o amor te leve aos lugares certos, deixa que o amor te deixe louco, afinal, nós não passamos de pequenas criaturas dementes que não valem nada se não saberem fazer o amor vale, eu amo-te, meu pequeno, e não sabes o quanto te agradeço por me teres mostrado naquele dia em que entrei no quarto de hospital e te vi deitado naquele pequeno berço, vestido de amarelo, com mãos pequeninas e um choro tão meiguinho e dócil, uma nova forma de amar e de ver o mundo,
Da tua tia adolescente