14 anos

Posted: October 5, 2012 in Contemporaneonissimo

Desde que tenho dois anos. Desde que tenho dois anos, sabe? Pouco tempo depois de eu ter começado a ver o real, a criar as memórias mais antigas, aí você estava, com uma arma na mão e milhões de mentiras na boca, pronto para destruir-me a mim e milhões de pessoas. E lamento-me por dizer que conseguiu em parte,  porque eu não sei nada da história do país que eu nasci, eu só sei falar espanhol porque o resto da minha família fala, eu não sei o hino, eu não sei os estados ou cidades, eu não sei ao certo as fronteiras que faz, e o mais incrível, é que eu estou a escrever este texto em português porque não conseguiria desenvolve-lo em espanhol da maneira como vou desenvolver, Bolivar teria vergonha, eu sei que ele teria vergonha de mim, eu penso em português que é a língua do país que me salvou dum futuro alternativo que teria sido sangue, crianças deixadas para trás e o meu corpo no chão violado e inerte, sem vida, sem futuro.
Mas o futuro é só uma ideia, uma projecção, o futuro não existe, nunca existiu, nem nunca existirá, o que eu procuro é por um sonho louco, por um espírito que acredite mais, porque eu quase que sou uma ateu involuntária em tantos assuntos, incluindo Deus. Ontem uma das pessoas mais loucas que conheço leu-me a aura (coisa de loucos, não?) e ele disse-me qualquer coisa que era pouco iluminada, que tinha assim uma energia muito fraca, que eu não acreditava em muita coisa, acho que disse que a cor era cinza. Pode ser que me estivesse a iludir com mais uma das suas teorias loucas que adoro ouvir, ou pode ser que ele tivesse visto a minha aura mesmo, mas seja como for, ele tem razão, eu tenho-me sentido envolta num véu cinzento na minha vida nos últimos meses, especialmente nestas últimas semanas.
Mas ilude-se a criatura que pensar que eu perdi velocidade ou resistência, eu continuo na corrida, eu estou mais forte, mais rápida e esperta que nunca, eu sou jovem e digo não todos os dias ao Deus da morte. Eu aprendi a criticar, eu aprendi a investigar, eu tenho a verdade aqui, dentro de mim, e continuo viva, eu aprendi a lutar contra o que me tenta destruir, eu aprendi a recuperar algo que considerei perdido para sempre, eu aprendi que não podia esquecer as minhas raízes porque são elas que fazem o troncos, os ramos e as folhas reais, eu aprendi muita coisa desde que estive fora, yo volvi a hablar español y en poco tiempo volvere a tener mi acento original.
14 anos. Passaram 14 anos e aprendi tanta coisa. Iria surpreender-se com tudo aquilo que eu aprendi. Eu aprendi a paz, eu aprendi a democracia, eu aprendi o ódio, eu aprendi a ditadura, eu aprendi a tolerância, eu aprendi a crise, eu aprendi a autenticidade, eu aprendi palavras como Wabi-sabi e Wanderlust, expressões como Carpe Diem e Memento Mori, eu aprendi o amor e todo o seu conteúdo agridoce, eu aprendi a amizade e o seu valor e alto custo, eu aprendi a música e a senti-la com todo o meu corpo e a reproduzi-la eu própria, eu aprendi noites em branco e doze horas de sonos, eu aprendi os romanos e os gregos, eu aprendi a Internet e as SMS às 4 da manhã. Eu aprendi a não ter medo de enfrentar as pessoas que você conseguiu influenciar e dizer-lhes o que pensava, mesmo sentindo o perigo e toda a opressão irracional, eu aprendi o suficiente para argumentar e contra argumentar, contra si, contra tudo aquilo que você representa, e não preciso do insultar porque a justiça e a verdade está do meu lado. Basta pensar que você alterou a constituição para ser presidente durante o tempo que quisesse, e olhe para si, está a morrer e não o consegue admitir.
Eu vou voltar um dia, eu garanto-lhe que vou e vou ver paz, estabilidade e esse sonho louco. Dalguma maneira ou da outra continua a ser o país em que nasci. Você esquece-se que eu sou jovem, que enquanto você estiver debaixo de terra, nos teremos ainda hipóteses de ter muitas festas para ir, crianças para inspirar e projectos para completar. O mundo continua senhor presidente Hugo Chavez, você há de morrer e sete eras de ouro hão de vir.

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Comments
  1. FireHead says:

    O problema, minha amiga, é que depois dele poderá vir outro igual… ou pior. O socialismo na Venezuela infelizmente está impregnado que nem um cancro. E o pior é que já se alastrou por toda a América Latina. O sonho revolucionário de Simon Bolivar continua bem vivo… e às custas dos que sofrem. Tenho pena dos oprimidos – não é por eles que o socialismo supostamente luta? Afinal, afinal…

    Mas é de louvar o teu optimismo. Se o que é bom não é eterno, o que é mau também não será para sempre. Pelo que tem que haver sempre espaço e tempo para a esperança que tanto nos ajuda a viver. E também com uma boa dose de Fé, ainda que sejas ateia como dizes, tudo se torna bem mais fácil. Afinal de contas são das únicas coisas que podemos nunca perder mesmo que tudo tenhamos perdido.

    Beijinhos.

  2. Eu acho que acredito no Capriles, não sei, eu tenho feito as minhas investigações, se quiseres podes ir ao youtube ver o que ele diz, é que é preciso uma coragem enorme para fazer o que ele está a fazer, mas podes ter razão, sabe-se lá se ele não é outro a enganar-me. Não é socialismo, é o “chavismo”.

    Seja como for, agradeço o teu comentário construtivo, acredita que eu raramente ouço algo assim sobre o assunto! 🙂

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