A vida é tão curta

Posted: April 30, 2012 in Cenas que escrevo

Notas da autora:

Atenção, eu era jovem e não sabia o que fazia! 
Este é o primeiro conto que escrevi, foi bastante inspirado no videoclip de Wake me up when september ends, provavelmente eu não escreveria tal coisa hoje, mesmo que haja só um ano de espaço o que escrevo hoje não tem nada haver com este conto. Pode ser fraquinho mas gosto dele porque foi o primeiro conto que escrevi. Mandei-o para um concurso e não ganhei nada, vai-se lá saber por quê com tanto cliché. BTW esta é a versão original, ainda houve uma tentativa de alongar o conto mas não resultou.

A vida é tão curta

O homem tem que estabelecer um final para a guerra, senão, a guerra estabelecerá um final para a humanidade, John Kenney
O sol brilhava agradavelmente sobre o campo verde onde se estendiam altíssimos girassóis que podiam ultrapassar a altura de uma pessoa. O vento soprava suavemente fazendo com que as flores baloiçassem num movimento leve e delicado de vaivém. Ouviam-se os típicos sons da natureza, os passarinhos a cantar, os grilos a fazer barulho e, de vez em quando, as pegadas dalgum gato a abrir caminho entre os girassóis ou a preparar-se para saltar e caçar alguma borboleta.
No meio da paz e do sossego estavam dois jovens apaixonados abraçados.
– Sabes Aurora… – começou o rapaz, olhando a rapariga nos olhos – A vida é tão curta… Tenho medo de acordar um dia e tu não estares lá… Todos os sonhos e tudo o que eu queria… Desaparecidos assim… simplesmente… As pessoas e as coisas mudam, e acabamos por envelhecer e um dia morremos…Eu quero este preciso momento para sempre, o que sinto por ti, a forma como tu me estás a olhar…
– Eu nunca te vou deixar – respondeu a rapariga – Nunca. Vou estar lá sempre para ti, eu amo-te, e nada nem ninguém vai mudar isso.
A rapariga apertou a mão do rapaz como quem fizesse uma promessa e repetiu:
– Eu amo-te Samuel. Vou estar contigo seja onde for, seja por que for.
– Eu sei – disse ele, e nos seus azuis esverdeados transparecia uma certa tristeza e uma leve insegurança, que Aurora não notou por estar com a sua cabeça recostada no seu ombro
– Não me deixes nunca, por favor – pediu ela quase a suplicar
– Nunca – prometeu-lhe ele numa mentira tão doce e verdadeira
Aurora deitou-se sobre a erva e Samuel seguiu o exemplo. Ficaram assim a trocar típicas palavras de apaixonados, a partilhar sonhos e a fazer planos, enquanto o sol se punha nas montanhas e o céu ganhava tonalidades laranjas e rosas.
-Podíamos comprar uma casa perto da praia e aos fins-de-semana iríamos à praia com os nossos filhos. Eles correriam felizes pela areia e construiriam castelos.
Samuel sorriu-lhe, mas os seus olhos distantes não se ajustavam ao sorriso que havia esboçado.
À medida que a noite ficava cada vez mais escura, a mente e o corpo dos dois jovens apaixonados iam cedendo ao cansaço e a certa altura acabaram por adormecer.
O Verão passava rapidamente para os dois jovens namorados e o tempo ia moldando a sua relação. Aquele amor crescia entre beijos e abraços, sonhos e planos, e cada segundo que passavam juntos contribuía para amadurecer o namoro. Eles iam juntos ao cinema, conheciam as famílias um do outro, almoçavam juntos quase todos os dias e de vez quando iam ao campo verde repleto de girassóis.
Porém, havia algo que estragava ligeiramente aquela perfeita ilusão e que incomodava constantemente Aurora:
– Não te alistaste, pois não? – perguntou Aurora a Samuel, enquanto apreciava a vista do campo verde cheio de girassóis, sentada com Samuel nos baloiços de um parque infantil já há muito abandonado
– Não – respondeu Samuel olhando para o chão
– Que peso me tiras da consciência… O estado anda a recrutar rapazes para a guerra e eu pensei… – desabafou Aurora e notando nos sentimentos que saltavam da retina de Samuel inquiriu – O que tens?
– Nada… Estou só a pensar que te amo
– E isso faz-te ficar triste?
– Não. Faz-me pensar que… Não te lembras o que te disse no início do verão?
– Lembro, esquece isso…
Samuel não respondeu, limitou-se a anuir e voltou a meter os olhos no chão, notando que as primeiras folhas secas já marcavam a sua presença.
O número de folhas crescia dia após dias e o Outono já começava a ocupar o lugar ao verão. As folhas agrupavam-se em montinhos que tinham de ser repostos todos os dias, já que o vento e as crianças adoravam destruí-los.
Num dia quente, porém fresco, de Setembro Aurora empurrou a porta traseira da sua casa com tanta força que quase a partiu e aproximou-se em passos pesados a Samuel e inquiriu-lhe:
-Porque é que o fizeste?
-Eu ia contar-te…
-Mentiroso! – gritou Aurora empurrando-o, e depois caiu em lágrimas – Eu não acredito… Como é que tu foste capaz…? Tu disseste que não te tinhas alistado… Meu Deus… Agora tu…
-Eu fi-lo por nós! – gritou ele colocando as mãos na testa carregado de frustração – Porque é que não compreendes? Eu fi-lo por ti! Pela minha família e pela pátria!
-Oh meu Deus…- balbuciou ela em choros, gemidos e guinchos – Covarde…
Samuel não gostou daquelas palavras e Aurora ficou tão zangada que não lhe falou mais. Então ele partiu para a guerra, sem despedidas e sem um último beijo. Mesmo sabendo que aqueles podiam ter sido os últimos dias da sua vida.
As notícias da guerra eram limitadas, as imagens e filmagens eram escassas e os jornalistas pouca informação podiam dar, já que por questões de seguranças estavam condicionados. Portanto, quase tudo o que chegava à Aurora era-lhe tão útil como saber que Samuel estava na guerra, mas mesmo assim, por amor ao país, via sempre que podia as notícias e por reflexo assomava-se à janela, procurando dentro de si uma forma de matar a saudade e o desgosto que Samuel lhe tinha causado.
O que mais doía a Aurora era não poder saber o estado do seu companheiro. Podia estar vivo ou morto, prisioneiro ou ferido. As hipóteses eram tantas e quantas mais colocava, pior ficava. Era durante a noite, quando se sentia indefesa, que a dor a atacava com facadas mais profundas. Ela roía as unhas, arranhava o colchão, apertava os cobertores contra o peito e chorava descontroladamente, mas quando era de dia ela escondia a dor por de trás de um sorriso e não se deixava cair se tivesse que falar sobre o assunto, e teve que fazê-lo muitas vezes, porque o assunto era nacional e não podia ignorá-lo, seria egoísta o cidadão que o ignorasse.
Ela desistiu da sua própria vida, largara a universidade e não falava com ninguém, mas um dia o sol entrou com mais luminosidade no seu quarto e ela decidiu que tinha de largar a tristeza e frustração e fazer-se à vida. E foi assim que aos poucos reconstruiu as peças da sua vida que Samuel havia destruído.
– Podia ter sucumbido simplesmente, como tantas outras fizeram. Mas a minha vida existia antes de Samuel entrar nela – observou Aurora, dez anos depois de ter recebido a notícia que ela mais temera, a morte de Samuel – Mas eu não podia acabar com a minha vida, especialmente naquele momento da minha vida em que era jovem.
A amiga que ouvia a sua história engoliu em seco e deteve as lágrimas.
– Eu amava-o sim. Mas o mundo continuava vivo fora da janela do meu quarto e o tempo não tinha parado um segundo sequer. Significava que eu continuava viva, apesar de não acreditar, eu ainda tinha uma vida pela frente. Depois de muitos chás, choros e chocolates cheguei a conclusão que era simplesmente estúpido chorar sobre leite derramado. O que está morto não volta e a única saída que nos resta é agarrar-nos à algo e continuar a respirar.
A sua amiga respirou fundo, as duas levantaram-se do sofá e aproximaram-se da varanda. Uma bela praia era visível debaixo dos seus pés, no mar ondas sopravam com suavidade, trazendo-lhes uma brisa marítima agradável, e na areia um menino corria feliz e construía castelos.
-A vida é tão curta… – disse Aurora sorrindo e contemplando os olhos do menino. Uns olhos azuis esverdeados como os de Samuel.
Victória Esseker
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Comments
  1. Hayley Nya* says:

    Eu já li isto, mas acho que alteraste umas coisas, certo? Eu gostei bastante! 😀 Tens um bom vocabulário e acho que podias fazer daqui uma boa história! 😀

  2. Hayley: Não sei, acho que na outra versão ela não tinha engravidado. Eu só fiz mesmo o copypaste do word, não o altero desde que o mandei para o concurso.

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